terça-feira, 13 de janeiro de 2009

A FÍSICA CLÁSSICA E O REALISMO MATERIALISTA
Texto da obra: "O UNIVERSO AUTOCONSCIENTE: Como a consciência cria o mundo material".
Autor: Amit Goswami - Richard E. Reed - Maggie Goswami.

Ao visitar o Palácio de Versalhes, René Descartes, matemático e filósofo francês do século XVII, ficou encantado com a imensa coleção de autômatos reunida nos jardins. Acionados por mecanismos ocultos, água corria, música tocava, ninfas faziam cabriolas no mar e o majestoso Netuno erguia-se das profundezas de um tanque. Enquanto observava o espetáculo. Descartes concebeu a idéia de que o mundo poderia ser um autômato — uma máquina mundial.

Mais tarde, ele propôs uma versão bastante modificada dessa imagem de mundo como máquina. A famosa filosofia do dualismo dividiu o mundo em uma esfera objetiva de matéria (o domínio da ciência) e outra, subjetiva, da mente (o domínio da religião). Dessa maneira, libertava ele a investigação científica da ortodoxia de uma Igreja poderosa.

Descartes tomou emprestada de Aristóteles a idéia de objetividade. A idéia básica era que objetos são independentes e separados da mente (ou consciência). Mais tarde vamos nos referir a essa idéia como o princípio da objetividade forte. Descartes deu também contribuições às leis da física, que erigiriam em culto científico sua idéia de mundo como máquina.

Coube, no entanto, a Newton, e a seus herdeiros através do século XVIII, plantar firmemente no solo o materialismo e seu corolário: o princípio do determinismo causal, ou a idéia de que todo movimento pode ser exatamente previsto, dadas as leis do movimento e as condições iniciais em que se encontravam os objetos (onde estão e com que velocidade se deslocam).

Se o leitor quer compreender a visão cartesiano-newtoniana do mundo, pense no universo como um grande número de bolas de bilhar — grandes e pequenas— em uma mesa de bilhar tridimensional, que chamamos de espaço. Se conhecemos, em todas as ocasiões, todas as forças que agem sobre cada uma dessas bolas, então, simplesmente conheceremos as condições iniciais — suas posições e velocidades em algum tempo inicial — permite-nos calcular o lugar onde cada um desses corpos estará em todas as ocasiões futuras (ou, por falar nisso, onde estiveram em qualquer ocasião anterior).

A importância fílosófíca do determinismo foi sumariada melhor do
que ninguém por Pierre-Simon de Laplace, matemático do século XVIII: "Uma inteligência que, em qualquer dado momento, conhecesse todas as forças através das quais a natureza é animada e o estado dos corpos dos quais ela é composta, abrangeria — se ela fosse vasta o suficiente para submeter os dados à análise — na mesma fórmula os movimentos dos grandes corpos do universo e os dos átomos mais leves: nada seria duvidoso para essa inteligência e o futuro, tal como o passado, seria o presente aos seus olhos."

Laplace escreveu também um livro muito popular sobre mecânica
celeste que o tornou famoso, tão famoso que o imperador Napoleão convocou-o a ir ao palácio. — Monsieur Laplace — disse Napoleão —, o senhor não mencionou Deus, nem uma única vez, em seu livro. Por quê.^ (Nesses dias, o costume exigia que Deus fosse citado algumas vezes em todos os livros importantes, o que explica a curiosidade de Napoleão. Que tipo atrevido era esse Laplace, para romper com um costume tão venerável.)

A suposta resposta de Laplace é um clássico: — Majestade, eu não precisei dessa hipótese particular. Laplace compreendia corretamente a implicação da física clássica e de sua estrutura matemática, causalmente determinista. Em um universo newtoniano, não há a menor necessidade de Deus!

Aprendemos até agora dois princípios fundamentais da física clássica: a objetividade forte e o determinismo. O terceiro foi descoberto por Albert Einstein.

A teoria da relatividade de Einstein, uma extensão da física clássica a corpos que se movem em alta velocidade, exigia que a
velocidade mais alta nas estradas da natureza fosse a velocidade da luz. Essa velocidade é enorme — 300 mil quilômetros por segundo — mas, mesmo assim, limitada.

A implicação desse limite de velocidade é que todas as influências entre objetos materiais que se fazem sentir no es-
paço-tempo devem ser locais: eles têm que viajar através do espaço um pouco de cada vez, com uma velocidade finita. Este é o denominado princípio da localidade.

Ao dividir o mundo em matéria e mente, a intenção de Descartes
era estabelecer um acordo tácito: não atacaria a religião, que reinaria suprema em questões relativas à mente, em troca da supremacia da ciência sobre a matéria. Durante mais de 200 anos o acordo foi observado. No fim, o sucesso da ciência em prognosticar e controlar o meio ambiente levou cientistas a questionar a validade de todo e qualquer
ensinamento religioso.

Em especial, eles começaram a contestar o lado da mente, ou espírito, do dualismo cartesiano. O princípio do monismo
materialista foi assim acrescentado à lista de postulados do realismo materialista: todas as coisas existentes no mundo, incluindo a mente e a consciência, são feitas de matéria (e de generalizações da matéria, como energia e campos de força). Nosso mundo é material, de cima a baixo.

Claro, ninguém sabe ainda como extrair mente e consciência de
matéria, e portanto mais um postulado foi adicionado: o princípio do epifenomenalismo. De acordo com este princípio, todos os fenômenomentais podem ser explicados como sendo epifenômenos, ou seja, fenômenos secundários, da matéria, através de uma redução apropriada a condições físicas prévias.

A idéia básica é que o que denominamos de consciência constitui simplesmente uma propriedade (ou grupo de propriedades) do cérebro, quando este é considerado em um certo nível.

Os cinco princípios seguintes, portanto, enfeixam a filosofia do realismo materialista:
1. Objetividade forte
2.Determinismo causal
3. Localidade
4. Monismo físico, ou materialista
5. Epifenomenalismo

Essa filosofia recebe também o nome de realismo científico, o que implica que o realismo materialista é essencial à ciência.

A maioria dos cientistas, pelo menos inconscientemente, ainda acredita que isso acontece, mesmo diante de dados solidamente comprovados que desmentem os cinco princípios.

É importante compreender desde o início que os princípios do realismo materialista são postulados metafísicos, ou seja, suposições sobre a natureza do ser, e não conclusões calcadas em experimentos. Se forem descobertos dados experimentais que refutem qualquer um desses postulados, o postulado em causa terá que ser sacrificado. Analogamente, se argumentação racional revelar a debilidade de um dado postulado, sua validade terá que ser questionada.

Uma grande fraqueza do realismo materialista é que a filosofia parece excluir inteiramente os fenômenos subjetivos. Se mantemos firmemente um postulado de objetividade forte, muitos dos impressionantes experimentos realizados no laboratório cognitivo não são admissíveis como dados.

Realistas materialistas estão bem cientes dessa deficiência. Por isso mesmo, em anos recentes, grande atenção foi dada à questão de se, ou não, os fenômenos mentais (incluindo a autoconsciência) podem ser compreendidos na base dos modelos materialistas — notadamente, os modelos de computador.

Vamos examinar agora a idéia básica que dá lastro a esses modelos: a idéia da máquina mental.

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