Mostrando postagens com marcador Totalitarismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Totalitarismo. Mostrar todas as postagens

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Quem cria o totalitarismo ?
O totalitarismo é o resultado de uma série de eventos sociais. Porém, todos estes eventos estão ligados com a dominação, opressão, exclusão e exploração. Por isso, eu considero que o totalitarismo é exacerbação de tudo isto. Se a dominação antes estava na escala dez, no ambiente totalitário chega na escala 1000. A dominação se torna dominação completa. A opressão se torna opressão total. A exclusão é exclusão mesmo (pega o indivíduo queima em um forno, etc). E a exploração é a exploração máxima.

Tudo isto é gestado e criado de gota em gota, de ato em ato, desemprego em desemprego, dia após dia. Ninguém olha para as conseqüências da pobreza, da miséria, das violações de direito, das injustiças. São apenas, dizem todos, borboletas batendo suas asinhas, qual é o dano que uma pequena borboleta pode causar ? Um físico responderia: uma borboleta que bate as asas no Japão, pode causar um furacão no Caribe.

Eu pegaria isto e diria, pequenas borboletas de dominação, opressão, exclusão e exploração batendo suas asinhas hoje, pode gerar o totalitarismo nas décadas futuras. O efeito em cadeia é dado e transmitido pelo ódio social. Um ódio que contamina a sociedade, passando de pessoa para pessoa. Este ódio acumulado na cadeia ao longo do tempo explode em um sistema totalitário. O ódio social é a energia do totalitarismo.

Isto é teoria de sistema. É Teoria do Caos. Inegavelmente, o totalitarismo tem relação com o caos. Ele pretende destruir um mundo e construir outro sobre as cinzas. Um novo mundo no qual a sociedade é parecida com uma sociedade de formiga. E os homens são homens-formiga. Cada um faz exatamente o que tem de fazer, sem mudar as regras, sem criatividade, sem individualidade. Todas formigas arianas.

O ódio social está dentro da consciência totalitária. Ele pode ser fixado na consciência totalitária como um dogma, por exemplo, o anti-semitismo, anti-capitalismo, comunismo, etc. Inclusive o vazio de pensamento fixa o dogma com muito mais facilidade quando ele está diretamente ligado com uma emoção, com o ódio por alguém ou por alguma coisa. A mídia e propaganda, contando histórias mentirosas, podem potencializar infinitamente este ódio.

Uma dominação hoje, duas amanhã, dez no ano que vem e, de repente, dominação total... O mal vai entrando aos poucos, se tornando corriqueiro e comum e cada vez mais superficial em nosso pensamento. De tanto ver o mal, de tanto vê-lo todos os dias, chega uma hora que estamos completamente anestesiados. Olhamos para o mal, mas não o vemos. Praticamos o mal e não percebemos. Não refletimos sobre aquela ação, as conseqüências daquela ação. Nesta hora podemos falar em banalidade do mal. O mal se tornou banal em nossas vidas...

Não necessariamente esta dominação é feita por antigos dominadores, opressores e exploradores. Os antigos podem ser suplantados pelos dominados, oprimidos e explorados. Logo, a dominação total é feita por estes últimos e os antigos são perseguidos, capturados e exterminados.

Assim, uma das razões da exacerbação, seria o fato da ação dos líderes totalitários ser, não apenas a materialização dos dogmas que pregavam, mas sobretudo, uma vingança do ódio social acumulado. Vingança contra aqueles que são objeto desse ódio...

De acordo com Nerone, na obra "Hannah Arendt e o declínio da esfera pública":

"O totalitarismo, ponto de partida para o pensamento de Hannah Arendt em busca do sentido da política, é por ela conceituado como um fenômeno distinto das tiranias antigas e das ditaduras, posto que almeja impor o domínio total sobre a sociedade e cuja ideologia pretende, numa segunda etapa, açambarcar toda a população mundial.

Mediante a hipertrofia da política, "na qual toda a vida humana foi politizada por completo", e a destruição da esfera pública mediante o fim da liberdade, o governo totalitário objetiva controlar todas as dimensões da vida das pessoas através do terror. Para tanto, os movimentos totalitários tentaram abolir a separação entre as esferas públicas e privadas, e eliminar a própria essência da política: a liberdade.


Para Arendt, o totalitarismo, nas suas formas stalinistas e nazistas, foi conseqüência da conjugação dos seguintes fatores: por um lado, o surgimento da sociedade de massas, a dissolução de classes sociais e a atomização dos indivíduos sob a Revolução Industrial; por outro, a crise socioeconômica e do sistema partidário decorrente da Primeira Grande Guerra. (...) (p. 87)

Essas massas, desesperançadas pelo advento das altas taxas de infração e desemprego que se seguiram ao fim da Primeira Guerra, tenderam para o nacionalismo especialmente violento e foram arregimentadas e organizadas pelos movimentos totalitários, que delas exigem lealdade total e irrestrita, base psicológica do domínio total e subjugação internalizada.

O movimento totalitário aproveitou-se do ódio popular com relação aos partidos políticos para destruir esse sistema de representação. No entender de Hannah Arendt, tais episódios comprovariam que as liberdades democráticas necessitam de alguma forma de organização institucionalizada ou de hierarquia social e política para que possam funcionar adequadamente, afirmação que se coaduna com sua concepção de que a política é fruto da ação coletiva e que exige um espaço organizado para que a liberdade possa ser exercida, a esfera pública.

A atomização dos indivíduos sob o sistema produtivo industrial, acirrado pelo individualismo politicamente apático da sociedade de consumo, esta pautada pela concorrência interpessoal, teria reduzido a conexão dos indivíduos com seus semelhantes e eliminado a solidariedade comunitária. O individualismo da ideologia liberal, para quem a mera soma dos interesses individuais constitui o milagre do bem comum, incitava uma indiferença, e até mesmo uma hostilidade com relação à participação nas atividades da esfera pública, considerada como perda de tempo e energia; sob o totalitarismo, nada foi tão fácil de destruir quanto a privacidade e a moralidade pessoal de homens que só pensavam em salvaguardar suas vidas privadas. (p.88)

O domínio totalitário teria se instaurado mediante três etapas: a destruição dos direitos civis (a morte da sua pessoa jurídica), a destruição da pessoa moral do homem (corrupção da solidariedade) e por fim a destruição da individualidade (singulariedade e espontaneidade humana). O isolamento dos indivíduos atomizados teria sido a base para o domínio totalitário, concebido exclusivamente como força, que objetivou a abolição da liberdade e até mesmo a eliminação de toda espontaneidade humana em todos os aspectos da vida.

Para Hannah Arendt, a destruição do mundo comum e o isolamento dos indivíduos no âmbito de uma esfera privada controlada são as precondições para a instalação do governo totalitário, pois anulariam a capacidade de iniciativa de novas ações políticas. (p.89)"

Enfim, vou refletir mais sobre tudo isto...
Quem cria o totalitarismo ?
O totalitarismo é o resultado de uma série de eventos sociais. Porém, todos estes eventos estão ligados com a dominação, opressão, exclusão e exploração. Por isso, eu considero que o totalitarismo é exacerbação de tudo isto. Se a dominação antes estava na escala dez, no ambiente totalitário chega na escala 1000. A dominação se torna dominação completa. A opressão se torna opressão total. A exclusão é exclusão mesmo (pega o indivíduo queima em um forno, etc). E a exploração é a exploração máxima.

Tudo isto é gestado e criado de gota em gota, de ato em ato, desemprego em desemprego, dia após dia. Ninguém olha para as conseqüências da pobreza, da miséria, das violações de direito, das injustiças. São apenas, dizem todos, borboletas batendo suas asinhas, qual é o dano que uma pequena borboleta pode causar ? Um físico responderia: uma borboleta que bate as asas no Japão, pode causar um furacão no Caribe.

Eu pegaria isto e diria, pequenas borboletas de dominação, opressão, exclusão e exploração batendo suas asinhas hoje, pode gerar o totalitarismo nas décadas futuras. O efeito em cadeia é dado e transmitido pelo ódio social. Um ódio que contamina a sociedade, passando de pessoa para pessoa. Este ódio acumulado na cadeia ao longo do tempo explode em um sistema totalitário. O ódio social é a energia do totalitarismo.

Isto é teoria de sistema. É Teoria do Caos. Inegavelmente, o totalitarismo tem relação com o caos. Ele pretende destruir um mundo e construir outro sobre as cinzas. Um novo mundo no qual a sociedade é parecida com uma sociedade de formiga. E os homens são homens-formiga. Cada um faz exatamente o que tem de fazer, sem mudar as regras, sem criatividade, sem individualidade. Todas formigas arianas.

O ódio social está dentro da consciência totalitária. Ele pode ser fixado na consciência totalitária como um dogma, por exemplo, o anti-semitismo, anti-capitalismo, comunismo, etc. Inclusive o vazio de pensamento fixa o dogma com muito mais facilidade quando ele está diretamente ligado com uma emoção, com o ódio por alguém ou por alguma coisa. A mídia e propaganda, contando histórias mentirosas, podem potencializar infinitamente este ódio.

Uma dominação hoje, duas amanhã, dez no ano que vem e, de repente, dominação total... O mal vai entrando aos poucos, se tornando corriqueiro e comum e cada vez mais superficial em nosso pensamento. De tanto ver o mal, de tanto vê-lo todos os dias, chega uma hora que estamos completamente anestesiados. Olhamos para o mal, mas não o vemos. Praticamos o mal e não percebemos. Não refletimos sobre aquela ação, as conseqüências daquela ação. Nesta hora podemos falar em banalidade do mal. O mal se tornou banal em nossas vidas...

Não necessariamente esta dominação é feita por antigos dominadores, opressores e exploradores. Os antigos podem ser suplantados pelos dominados, oprimidos e explorados. Logo, a dominação total é feita por estes últimos e os antigos são perseguidos, capturados e exterminados.

Assim, uma das razões da exacerbação, seria o fato da ação dos líderes totalitários ser, não apenas a materialização dos dogmas que pregavam, mas sobretudo, uma vingança do ódio social acumulado. Vingança contra aqueles que são objeto desse ódio...

De acordo com Nerone, na obra "Hannah Arendt e o declínio da esfera pública":

"O totalitarismo, ponto de partida para o pensamento de Hannah Arendt em busca do sentido da política, é por ela conceituado como um fenômeno distinto das tiranias antigas e das ditaduras, posto que almeja impor o domínio total sobre a sociedade e cuja ideologia pretende, numa segunda etapa, açambarcar toda a população mundial.

Mediante a hipertrofia da política, "na qual toda a vida humana foi politizada por completo", e a destruição da esfera pública mediante o fim da liberdade, o governo totalitário objetiva controlar todas as dimensões da vida das pessoas através do terror. Para tanto, os movimentos totalitários tentaram abolir a separação entre as esferas públicas e privadas, e eliminar a própria essência da política: a liberdade.


Para Arendt, o totalitarismo, nas suas formas stalinistas e nazistas, foi conseqüência da conjugação dos seguintes fatores: por um lado, o surgimento da sociedade de massas, a dissolução de classes sociais e a atomização dos indivíduos sob a Revolução Industrial; por outro, a crise socioeconômica e do sistema partidário decorrente da Primeira Grande Guerra. (...) (p. 87)

Essas massas, desesperançadas pelo advento das altas taxas de infração e desemprego que se seguiram ao fim da Primeira Guerra, tenderam para o nacionalismo especialmente violento e foram arregimentadas e organizadas pelos movimentos totalitários, que delas exigem lealdade total e irrestrita, base psicológica do domínio total e subjugação internalizada.

O movimento totalitário aproveitou-se do ódio popular com relação aos partidos políticos para destruir esse sistema de representação. No entender de Hannah Arendt, tais episódios comprovariam que as liberdades democráticas necessitam de alguma forma de organização institucionalizada ou de hierarquia social e política para que possam funcionar adequadamente, afirmação que se coaduna com sua concepção de que a política é fruto da ação coletiva e que exige um espaço organizado para que a liberdade possa ser exercida, a esfera pública.

A atomização dos indivíduos sob o sistema produtivo industrial, acirrado pelo individualismo politicamente apático da sociedade de consumo, esta pautada pela concorrência interpessoal, teria reduzido a conexão dos indivíduos com seus semelhantes e eliminado a solidariedade comunitária. O individualismo da ideologia liberal, para quem a mera soma dos interesses individuais constitui o milagre do bem comum, incitava uma indiferença, e até mesmo uma hostilidade com relação à participação nas atividades da esfera pública, considerada como perda de tempo e energia; sob o totalitarismo, nada foi tão fácil de destruir quanto a privacidade e a moralidade pessoal de homens que só pensavam em salvaguardar suas vidas privadas. (p.88)

O domínio totalitário teria se instaurado mediante três etapas: a destruição dos direitos civis (a morte da sua pessoa jurídica), a destruição da pessoa moral do homem (corrupção da solidariedade) e por fim a destruição da individualidade (singulariedade e espontaneidade humana). O isolamento dos indivíduos atomizados teria sido a base para o domínio totalitário, concebido exclusivamente como força, que objetivou a abolição da liberdade e até mesmo a eliminação de toda espontaneidade humana em todos os aspectos da vida.

Para Hannah Arendt, a destruição do mundo comum e o isolamento dos indivíduos no âmbito de uma esfera privada controlada são as precondições para a instalação do governo totalitário, pois anulariam a capacidade de iniciativa de novas ações políticas. (p.89)"

Enfim, vou refletir mais sobre tudo isto...
O retorno do totalitarismo
Seria uma oportunidade muito interessante para testar a minha teoria sobre a escravidão totalitária. Um sistema totalitário real se formando bem na minha frente. Porém, o mal que estes sistemas acarretam é incomensurável. Certamente, os operadores do sistema iriam esconder o mal ou iriam justificá-lo como vingança, ou justiça, dependendo da perspectiva de quem olha, pelas centenas de anos de escravidão e morte ocasionado aos negros pelos brancos. Seria uma espécie de ariano ao contrário, o arianismo negro....

Com isto, o domínio total estaria justificado. E a disseminação pelo resto do planeta seria embasada na idéia de libertação planetária dos negros escravizados pelos brancos e pela realização de justiça aos antepassados mortos.

Todos os ingredientes estão se juntando e se aproximando um do outro. E se eu vejo isto, outros também podem ver, principalmente quem tem intenções totalitárias. Eu espero que este sistema totalitário seja fictício, seja apenas imagens da minha cabeça. Espero que não sejam ecos de algo que está vindo por aí, de algo que está se materializando camufladamente...
O retorno do totalitarismo
Seria uma oportunidade muito interessante para testar a minha teoria sobre a escravidão totalitária. Um sistema totalitário real se formando bem na minha frente. Porém, o mal que estes sistemas acarretam é incomensurável. Certamente, os operadores do sistema iriam esconder o mal ou iriam justificá-lo como vingança, ou justiça, dependendo da perspectiva de quem olha, pelas centenas de anos de escravidão e morte ocasionado aos negros pelos brancos. Seria uma espécie de ariano ao contrário, o arianismo negro....

Com isto, o domínio total estaria justificado. E a disseminação pelo resto do planeta seria embasada na idéia de libertação planetária dos negros escravizados pelos brancos e pela realização de justiça aos antepassados mortos.

Todos os ingredientes estão se juntando e se aproximando um do outro. E se eu vejo isto, outros também podem ver, principalmente quem tem intenções totalitárias. Eu espero que este sistema totalitário seja fictício, seja apenas imagens da minha cabeça. Espero que não sejam ecos de algo que está vindo por aí, de algo que está se materializando camufladamente...
O que nós temos para o totalitarismo
Temos um ambiente propício. Temos uma massa atomizada ou semi-atomizada. Uma maioria supérflua e descartável. Uma minoria dominante arrogante, estúpida e odiável, ideal para campo de concentração. Temos um conjunto de dogmas enraizados. Temos um discurso montado. Temos um sistema político falido. Temos um modelo de SS (Bope). Temos uma mídia dominante construída e pronta para ser assumida pelo Estado. Temos a incompetência dos sociais-democratas, ou algo parecido, na solução dos graves problemas sociais (Isto sempre vem antes da ação totalitária. Hindenburg na Alemanha. Kerensky na URSS).

Os dogmas ? Podem vir da escravidão e de suas conseqüências... O discurso ? Pode ser elaborado nas idéias de coletivização, confisco das riquezas da minoria dominante que roubou a maioria oprimida por centenas de anos, etc...

O que está faltando ? Movimentar a massa... O monstro totalitário está sendo gestado nas favelas e periferias. As sementes totalitárias estão germinando e as autoridades somente perceberão isto quando estiverem sendo embarcadas para os campos de concentração.

Quem está criando o monstro totalitário ? Resposta: aqueles que serão exterminados por ele, quem domina o sistema atual, gerando pobreza, miséria e desigualdades sociais...

Se liga, Zé mané !!! Se eu tivesse intenções totalitárias, não estaria contando isto...
O que nós temos para o totalitarismo
Temos um ambiente propício. Temos uma massa atomizada ou semi-atomizada. Uma maioria supérflua e descartável. Uma minoria dominante arrogante, estúpida e odiável, ideal para campo de concentração. Temos um conjunto de dogmas enraizados. Temos um discurso montado. Temos um sistema político falido. Temos um modelo de SS (Bope). Temos uma mídia dominante construída e pronta para ser assumida pelo Estado. Temos a incompetência dos sociais-democratas, ou algo parecido, na solução dos graves problemas sociais (Isto sempre vem antes da ação totalitária. Hindenburg na Alemanha. Kerensky na URSS).

Os dogmas ? Podem vir da escravidão e de suas conseqüências... O discurso ? Pode ser elaborado nas idéias de coletivização, confisco das riquezas da minoria dominante que roubou a maioria oprimida por centenas de anos, etc...

O que está faltando ? Movimentar a massa... O monstro totalitário está sendo gestado nas favelas e periferias. As sementes totalitárias estão germinando e as autoridades somente perceberão isto quando estiverem sendo embarcadas para os campos de concentração.

Quem está criando o monstro totalitário ? Resposta: aqueles que serão exterminados por ele, quem domina o sistema atual, gerando pobreza, miséria e desigualdades sociais...

Se liga, Zé mané !!! Se eu tivesse intenções totalitárias, não estaria contando isto...

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Praga inaugura instituto de estudo dos regimes totalitários
A cidade de Praga, na República Checa, conta, a partir de hoje, com um instituto de estudo dos regimes totalitários, que se vai dedicar à era comunista (1948-1989) e à ocupação nazi (1938-1945). O instituto terá como principal missão reunir, analisar e abrir a consulta de documentos destes períodos que se encontram em arquivos, como os dossiers da ex-polícia secreta comunista StB (Statni Bezpecnost).

No entanto, o regime comunista será central nos trabalhos desenvolvidos, explicou o director do instituto Pavel Zacek.

Um pouco por todos os países ex-comunistas de Europa de Leste é possível encontrar institutos dedicados ao estudo deste regime, como é o caso da Eslováquia e da Polónia. Agora é a vez da República Checa. A inauguração do centro em Praga é uma nova etapa no que diz respeito ao passado comunista do país: em 1991 foi adoptada uma lei para afastar da administração pública todos os ex-colaboradores da StB. Mais tarde, em 1996, os espiões tiveram autorização para consultar os seus processos. Em Março de 2003, foram divulgados numa lista os nomes de cerca de 75 mil antigos agentes da polícia secreta.

“Pela primeira vez depois de 1989, os arquivos da polícia secreta e dos recenseamentos civis e militares da época comunista estão concentrados num organismo único”, sublinhou Zacek.

Só os ficheiros do Ministério do Interior ocupam uma extensão de 17 quilómetros. Os arquivos contam com 120 mil dossiers pessoais dos colaboradores dos serviços secretos do regime comunista.

A criação do novo centro foi especialmente contentada por um grupo de 57 deputados comunistas e social-democratas que consideram que a coligação centro-direita está a “exercer uma influência política sobre a interpretação histórica” – argumento que acabou por ser rejeitado.

Por outro lado, o presidente da confederação de antigos prisioneiros políticos e presidente do conselho do novo instituto, Nadezda Kavalirova, felicitou o projecto e, em especial, o recrutamento para o mesmo de “jovens historiadores e investigadores, licenciados depois de 1990 e sem qualquer ligação ao passado”.

Antes da queda do regime comunista, mais de 260 mil prisioneiros políticos passaram pelos campos e prisões comunistas do país, mais 4 mil morreram e 248 foram executados.

------------------
The Office for the Documentation and the Investigation of the Crimes of Communism Police of the Czech Republic
Praga inaugura instituto de estudo dos regimes totalitários
A cidade de Praga, na República Checa, conta, a partir de hoje, com um instituto de estudo dos regimes totalitários, que se vai dedicar à era comunista (1948-1989) e à ocupação nazi (1938-1945). O instituto terá como principal missão reunir, analisar e abrir a consulta de documentos destes períodos que se encontram em arquivos, como os dossiers da ex-polícia secreta comunista StB (Statni Bezpecnost).

No entanto, o regime comunista será central nos trabalhos desenvolvidos, explicou o director do instituto Pavel Zacek.

Um pouco por todos os países ex-comunistas de Europa de Leste é possível encontrar institutos dedicados ao estudo deste regime, como é o caso da Eslováquia e da Polónia. Agora é a vez da República Checa. A inauguração do centro em Praga é uma nova etapa no que diz respeito ao passado comunista do país: em 1991 foi adoptada uma lei para afastar da administração pública todos os ex-colaboradores da StB. Mais tarde, em 1996, os espiões tiveram autorização para consultar os seus processos. Em Março de 2003, foram divulgados numa lista os nomes de cerca de 75 mil antigos agentes da polícia secreta.

“Pela primeira vez depois de 1989, os arquivos da polícia secreta e dos recenseamentos civis e militares da época comunista estão concentrados num organismo único”, sublinhou Zacek.

Só os ficheiros do Ministério do Interior ocupam uma extensão de 17 quilómetros. Os arquivos contam com 120 mil dossiers pessoais dos colaboradores dos serviços secretos do regime comunista.

A criação do novo centro foi especialmente contentada por um grupo de 57 deputados comunistas e social-democratas que consideram que a coligação centro-direita está a “exercer uma influência política sobre a interpretação histórica” – argumento que acabou por ser rejeitado.

Por outro lado, o presidente da confederação de antigos prisioneiros políticos e presidente do conselho do novo instituto, Nadezda Kavalirova, felicitou o projecto e, em especial, o recrutamento para o mesmo de “jovens historiadores e investigadores, licenciados depois de 1990 e sem qualquer ligação ao passado”.

Antes da queda do regime comunista, mais de 260 mil prisioneiros políticos passaram pelos campos e prisões comunistas do país, mais 4 mil morreram e 248 foram executados.

------------------
The Office for the Documentation and the Investigation of the Crimes of Communism Police of the Czech Republic

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Só para registro
Um outro estudioso, há muito tempo, também percebeu que o domínio totalitário ia além das coisas materiais visíveis, Certamente, ele não usou estes termos, pois ele era contemporâneo aos fatos. Estou falando de Reich, de Wilhelm Reich.

"Quando Reich declarou terem as massas desejado o fascismo, foi como mexer num vespeiro. Perseguido pelos nazistas, acabou sendo expulso também do partido comunista. Através de uma aproximação até hoje polêmica entre o marxismo e a psicanálise, Reich insistiu na crítica ao 'marxismo vulgar', sempre pronto a definir pela infra-estrutura econômica a análise de qualquer tipo de fenômeno. Não era pela teoria econômica, dizia ele, que o misticismo do nazismo poderia ser entendido.

Não era pela 'base econômica' que se poderia entender por que a massa de trabalhadores famintos votava na direita, ao invés de votar na esquerda. E cita Otto Strasser para criticar a permanente cegueira dos marxistas alemães: "Seu erro básico é que vocês rejeitam ou ridicularizam a alma e a mente, e não compreendem que estas movem tudo." "
(Nazismo: o triunfo da vontade - Alcir Lenharo - Ed. Ática - 1998 - p.15)

Certamente, as explicações de Reich envolvem outras variáveis. basicamente, ele diz que o domínio do fascismo e do nazismo deve ser entendido pela questão sexual e explica todas as coisas a partir dessa perspectiva. Você lê isto no livro "Psicologia de massa do fascismo" (Publicações Escorpião - 1974 - Porto).

Estou dizendo isto porque estou escrevendo um texto sobre a consciência totalitária e Reich apareceu na pesquisa. Logo, já estou mirando a obra citada, inclusive acabei de emprestá-la na biblioteca. Este é o lado bom da USP. Viu um livro citado em algum lugar, é só ir na biblioteca e emprestá-lo.

Mais especificamente, a citação de Reich diz o seguinte:

"Em muitas assembléias alemãs, ouviam-se frequentemente anti-capitalistas sensatos, e cheios de boas intenções, mesmo quando pensavam em termos nacionalistas e metafísicos, como por exemplo Otto Strasser, apresentar aos marxistas esta objeção:

Vocês, os marxistas, referem-se habitualmente à doutrina de Karl Marx. Mas ao que sabemos, Marx ensinou que a teoria só pela prática pode ser confirmada. Ora vocês limitam-se a dar explicações das derrotas da Internacional Operária. O vosso marxismo fracassou: o que serviu para explicar a derrota de 1914 foi a deserção da social-democracia; quanto a 1918, foi a traição da sua política e das suas ilusões. E agora vocês vêm com novos argumentos na manga para explicar que no momento da crise mundial as massas oscilaram para a direita e não para a esquerda ! Mas nem todas essas explicações poderão suprimir o facto da derrota ! Depois de 80 anos seria bom ver na prática a confirmação da doutrina da revolução social ! O vosso erro principal consiste em negar a alma e o espírito ou em zombar dele, e em não compreendê-lo, ele que imprime movimento a todas as coisas."

(Reich, Wilhelm. Psicologia de massa do fascismo. Porto. Publicações Escorpião, 1974. p. 10-1)
Só para registro
Um outro estudioso, há muito tempo, também percebeu que o domínio totalitário ia além das coisas materiais visíveis, Certamente, ele não usou estes termos, pois ele era contemporâneo aos fatos. Estou falando de Reich, de Wilhelm Reich.

"Quando Reich declarou terem as massas desejado o fascismo, foi como mexer num vespeiro. Perseguido pelos nazistas, acabou sendo expulso também do partido comunista. Através de uma aproximação até hoje polêmica entre o marxismo e a psicanálise, Reich insistiu na crítica ao 'marxismo vulgar', sempre pronto a definir pela infra-estrutura econômica a análise de qualquer tipo de fenômeno. Não era pela teoria econômica, dizia ele, que o misticismo do nazismo poderia ser entendido.

Não era pela 'base econômica' que se poderia entender por que a massa de trabalhadores famintos votava na direita, ao invés de votar na esquerda. E cita Otto Strasser para criticar a permanente cegueira dos marxistas alemães: "Seu erro básico é que vocês rejeitam ou ridicularizam a alma e a mente, e não compreendem que estas movem tudo." "
(Nazismo: o triunfo da vontade - Alcir Lenharo - Ed. Ática - 1998 - p.15)

Certamente, as explicações de Reich envolvem outras variáveis. basicamente, ele diz que o domínio do fascismo e do nazismo deve ser entendido pela questão sexual e explica todas as coisas a partir dessa perspectiva. Você lê isto no livro "Psicologia de massa do fascismo" (Publicações Escorpião - 1974 - Porto).

Estou dizendo isto porque estou escrevendo um texto sobre a consciência totalitária e Reich apareceu na pesquisa. Logo, já estou mirando a obra citada, inclusive acabei de emprestá-la na biblioteca. Este é o lado bom da USP. Viu um livro citado em algum lugar, é só ir na biblioteca e emprestá-lo.

Mais especificamente, a citação de Reich diz o seguinte:

"Em muitas assembléias alemãs, ouviam-se frequentemente anti-capitalistas sensatos, e cheios de boas intenções, mesmo quando pensavam em termos nacionalistas e metafísicos, como por exemplo Otto Strasser, apresentar aos marxistas esta objeção:

Vocês, os marxistas, referem-se habitualmente à doutrina de Karl Marx. Mas ao que sabemos, Marx ensinou que a teoria só pela prática pode ser confirmada. Ora vocês limitam-se a dar explicações das derrotas da Internacional Operária. O vosso marxismo fracassou: o que serviu para explicar a derrota de 1914 foi a deserção da social-democracia; quanto a 1918, foi a traição da sua política e das suas ilusões. E agora vocês vêm com novos argumentos na manga para explicar que no momento da crise mundial as massas oscilaram para a direita e não para a esquerda ! Mas nem todas essas explicações poderão suprimir o facto da derrota ! Depois de 80 anos seria bom ver na prática a confirmação da doutrina da revolução social ! O vosso erro principal consiste em negar a alma e o espírito ou em zombar dele, e em não compreendê-lo, ele que imprime movimento a todas as coisas."

(Reich, Wilhelm. Psicologia de massa do fascismo. Porto. Publicações Escorpião, 1974. p. 10-1)

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

O retorno do Totalitarismo
Analisando o fenômeno totalitário, percebe-se que o retorno do totalitarismo, na forma do nazismo, é muito difícil de acontecer, principalmente pelo fato, como mostra a matéria abaixo, de se conhecer todos os aspectos dessa vertente.

O perigo totalitário está nas formas que são pouco conhecidas e estudadas. Por exemplo, o extermínio de russos pelo Stalinismo, as ações de Pol Pot no Camboja, de Mao Tsé na China e os casos de extermínios na África.

Estas vertentes totalitárias também exterminaram milhões de pessoas e são pouco conhecidas. Não se basearam em questões anti-semitas e, como no caso dos russos, era o governo exterminando o próprio povo. Pessoas supérfluas e descartáveis para o sistema de governo.

Comparativamente, o Stalinismo é um Nazismo que não extermina Judeus, mas sim alemães. Por isso, muito mais terrível e muito mais perigoso. É o governo nacional contra os próprios nacionais.

Enfim, é preciso estudar e prestar muito mais atenção nestas vertentes e em seus métodos. São elas que estão se repetindo por aí... São elas que podem nos atacar de repente...
Alemanha expõe história do nazismo em memória ao aniversário do Holocausto
Notícias do New York Times - Tradução do G1
Ministro diz que país vai construir monumentos em homenagem a ciganos e gays mortos.

Nesta quarta (30) relembra-se o 75º aniversário da tomada do poder de Hitler.

A maioria dos países comemora os melhores momentos de sua história. A Alemanha, porém, não cansa de promover o que houve de pior na sua.

O gigantesco memorial do Holocausto que toma conta de uma parte do centro de Berlim só foi concluído depois de anos de polêmicas. Mas a construção de monumentos em memória ao ultraje nazista segue inabalável.

Na segunda-feira (28), o ministro da cultura da Alemanha, Bernd Neumann, anunciou que essa construção iniciaria em Berlim com dois monumentos, um próximo a Reichstag, em homenagem aos ciganos assassinados, conhecidos aqui como Sinti e Roma, e outro no perímetro da Porta de Brandenburg, aos gays e lésbicas mortos no Holocausto.

Em novembro, a Alemanha progrediu na tão adiada construção do centro Topografia do Terror no local que sediava a Gestapo e a SS. E em outubro, uma nova exposição enorme foi aberta no campo de concentração Bergen-Belsen. No campo de Dachau, próximo a Munique, será inaugurado um novo centro de visitação nos próximos meses. A cidade de Erfurt planeja construir um museu dedicado aos crematórios. Existem no momento duas exposições concorrentes sobre o papel das ferrovias alemãs na condução de milhões de pessoas à morte.

Nesta quarta-feira (30) relembra-se o 75º aniversário da tomada do poder de Hitler e do Partido Nazista na Alemanha, e a ocasião motivou um novo período de reflexão e análise do que aconteceu.

"Em que lugar do mundo já se viu um país que constrói memoriais para imortalizar sua própria vergonha?", questionou Avi Primor, ex-embaixador israelense na Alemanha, em um evento realizado em Erfurt na sexta-feira em memória ao Holocausto e à libertação de Auschwitz. "Somente os alemães tiveram essa coragem e humildade."

O esforço de fazer as pazes com a história se materializa não só nos prédios e exposições. O Departamento de Crimes Federais iniciou no ano passado uma investigação interna, na tentativa de esclarecer o passado nazista dos fundadores do partido após o término da guerra. Além disso, neste mês o promotor federal da Alemanha indeferiu o veredicto de culpado de Marinus van der Lubbe, o comunista holandês executado sob acusações de ter iniciado o incêndio de Reichstag. O 75º aniversário desse acontecimento será em 27 de fevereiro.

A experiência do nazismo está viva no debate público contemporâneo que aborda os mais variados temas: as tropas alemãs no Afeganistão, a baixa taxa de natalidade e a maneira de o país lidar com estrangeiros. Os motivos de o país parecer infinitamente obcecado pelo tema do nazismo é assunto de discussões intermináveis aqui. Esses motivos vão desde o temperamento filosófico da Alemanha ao simples choque diante da combinação sem precedentes de organização e brutalidade, até o sentimento de que o crime teve dimensões tão grandes que se espalhou como uma mácula pela cultura do país como um todo.

Sejam quais forem os motivos, à medida que os acontecimentos se tornam mais distantes e menos pessoais, esta sociedade é forçada a encarar a dúvida de como deveria preservar a memória de seus crimes e transgressões daqui para frente.

Nas décadas que sucederam a guerra, a questão central era como Hitler conseguiu chegar ao poder, disse Horst Moeller, diretor do Instituto de História Contemporânea, em uma entrevista. Até uma minissérie da televisão americana chamada "Holocausto", exibida na década de 1970, afetou a discussão na então Alemanha Ocidental, mudando o foco com muito mais intensidade para o sofrimento das próprias vítimas, como explicou Moeller.

Em 1969, Ruediger Nemitz começou a receber de volta as vítimas de Berlim exiladas pela tirania nazista, sendo a maioria esmagadora desse grupo composta por judeus. Berlim faz com que seus antigos cidadãos retornem para uma semana de visitas, com todas as despesas pagas, completando a iniciativa com uma recepção do prefeito.

O Programa de Convites de Ex-Cidadãos Perseguidos de Berlim, que trouxe cerca de 33 mil pessoas para visitar a cidade, chegou a ter 12 funcionários trabalhando em período integral. Agora restaram apenas Nemitz e um funcionário trabalhando meio período.

Contudo, o programa não está esmorecendo aos poucos devido à redução do suporte à preservação da memória do sofrido passado da Alemanha. Pelo contrário, em uma época em que o semi falido governo da cidade de Berlim foi obrigado a promover cortes significativos em outras áreas, Nemitz conta que todos os partidos políticos representando o parlamento da cidade apoiaram o programa e não diminuíram o orçamento de US$ 800 mil destinado a passagens aéreas, hotéis e tours desde pelo menos 2000.

"Quando o programa começou, eles eram adultos. Agora, são pessoas com quase nenhuma memória de Berlim", disse Nemitz em seu escritório no térreo do prédio da prefeitura. "Os que vêm hoje eram crianças na época." As visitas se encerrarão em 2010 ou 2011, segundo estimativas de Nemitz, já que o número de vítimas ainda vivas é muito pequeno.

É importante lembrar também que, além da dolorosa morte dos sobreviventes ao longo dos anos, a geração de Nemitz, daqueles que encararam os crimes de perto e lutaram para quebrar o silêncio de seus pais e professores, está começando a se aposentar. Quando o último grupo de visitação deixar Berlim, Nemitz, 61, que declarou ter medo de tirar férias e considera seu cargo mais como uma missão do que como um emprego, fechará as portas de seu escritório e se aposentará.

Há quem diga que os alemães jovens, que são obrigados a estudar com profundidade a era nazista e o Holocausto, deram poucas demonstrações de que deixariam o assunto morrer, apesar de sua distância dos acontecimentos. Afirma-se que a geração mais nova lida com o assunto não como uma fonte de culpa, mas de responsabilidade no panorama mundial pelo pacifismo e pela justiça social, incluindo a oposição à guerra no Iraque.

Outros afirmam que os crimes são tratados apenas superficialmente e que os jovens acabarão, talvez de forma menos latente, expressando sua exaustão do tema. "Não consigo deixar de sentir que uma parte desse contínuo 'Vamos construir monumentos; vamos construir museus aos judeus', seja um comportamento bastante ritualizado", declarou por telefone Susan Neiman, diretora do Einstein Forum, em Potsdam, organização internacional de pesquisa pública. "Preocupo-me muito se tudo isso não sairá pela culatra, tendo resultados contrários aos desejados."

A relação da Alemanha com sua história nazista até hoje costuma provocar controvérsias, como no caso das exposições concorrentes sobre as ferrovias. A primeira, chamada Train of Commemoration, é uma locomotiva que carrega itens de exposição que detalham como as crianças judias eram assassinadas no Holocausto.

O trem atravessa as cidades da Alemanha e fica aberto à visitação durante o percurso, tendo Auschwitz como destino final. Os organizadores da exposição reclamam que em vez de apoiar o projeto, a companhia ferroviária nacional Deutsche Bahn, prejudicou a mostra, fazendo com que os organizadores pagassem pelo uso dos trilhos mesmo enquanto relembram a história de crimes das ferrovias.

A segunda exposição, patrocinada pela própria Deutsche Bahn, foi inaugurada em Berlim na estação de trem Potsdamer Platz na semana passada. Os críticos desdenharam a exposição oficial como uma resposta à atenção da primeira exposição. Mas a exposição da Deutsche Bahn de fato mostra como a predecessora da empresa, a Reichsbahn, transportou cerca de 3 milhões de passageiros conduzindo-as à morte; é repleta de estatísticas e fotografias tenebrosas e dolorosas e histórias fortes de algumas das pessoas que sucumbiram.

Qualquer fracasso em lidar com a história com o devido zelo imediatamente atrai atenção nacional. Em Munique, no último final de semana, um desfile tradicional de carnaval foi realizado no Dia Internacional de Memória ao Holocausto, celebrado todos os anos em 27 de janeiro. A coincidência das datas provocou uma enxurrada de publicidade negativa para a cidade. Charlotte Knobloch, líder da organização nacional dos judeus, na Alemanha, declarou que o episódio "desonra e insulta as vítimas."

Stefan Hauf, porta-voz da cidade, declarou: "Não houve intenção de fazer nenhuma afronta." Ele explicou que a cidade poderia ter mudado a data do desfile, como o fez a cidade de Regensburg, mas o problema foi que muitos participantes estavam chegando de outros países e ficou impossível alterar a data de última hora. "A data estava marcada no calendário público desde maio do ano passado", disse Hauf.

Munique exerceu um papel especial na história nazista. Foi lá que o partido nacional-socialista teve ascensão e foi o local do Beer Hall Putsch de 1923, a fracassada tentativa de golpe de estado encerrada no mito nazista. Hitler acabou declarando a cidade como a Capital do Movimento. Ao contrário de Berlim, que ficou conhecida como a cidade que possui um memorial construído em praticamente cada esquina, Munique foi muitas vezes criticada por minimizar a importância de sua história.

"Munique era a Capital do Movimento. Desde 1945, é a capital do esquecimento", declarou Wolfram P. Kastner, artista que contou que ao longo dos anos brigou com o governo da cidade para obter autorizações e permissões para, por meio da arte performática, manter viva a memória do Holocausto.

O governo da cidade de Munique acredita que foi bastante ativo na tentativa de preservar a história daquela época. Em uma pequena caminhada saindo da histórica Marienplatz na cidade, vê-se todo um complexo de novos edifícios dedicado ao passado e ao presente dos judeus da cidade. A sinagoga nesse local foi inaugurada em novembro de 2006 no aniversário dos ataques Kristallnacht liderados pelos nazistas contra os estabelecimentos e locais de prece dos judeus e contra os próprios judeus. O Museu Judaico e um novo centro comunitário foram inaugurados em Munique no ano passado.

A cidade está trabalhando no projeto de um novo museu que será construído onde ficava a sede do partido nazista. O futuro Centro de Documentação da História do Nacional-Socialismo deve ser inaugurado em 2011. O objetivo declarado, de acordo com o site do museu, "é criar um local de aprendizagem que sirva para o futuro."

Focada nesse objetivo, Angelika Baumann, do Departamento de Artes e Cultura da cidade, está promovendo workshops com alunos de 14 a 18 anos, incluindo estudantes que se preparam para a universidade e alunos de escolas técnicas e crianças que não possuem origem etnicamente alemã. "Planejamos alcançar as pessoas que ainda nem nasceram", disse Baumann.

Tradução: Claudia Freire
O retorno do Totalitarismo
Analisando o fenômeno totalitário, percebe-se que o retorno do totalitarismo, na forma do nazismo, é muito difícil de acontecer, principalmente pelo fato, como mostra a matéria abaixo, de se conhecer todos os aspectos dessa vertente.

O perigo totalitário está nas formas que são pouco conhecidas e estudadas. Por exemplo, o extermínio de russos pelo Stalinismo, as ações de Pol Pot no Camboja, de Mao Tsé na China e os casos de extermínios na África.

Estas vertentes totalitárias também exterminaram milhões de pessoas e são pouco conhecidas. Não se basearam em questões anti-semitas e, como no caso dos russos, era o governo exterminando o próprio povo. Pessoas supérfluas e descartáveis para o sistema de governo.

Comparativamente, o Stalinismo é um Nazismo que não extermina Judeus, mas sim alemães. Por isso, muito mais terrível e muito mais perigoso. É o governo nacional contra os próprios nacionais.

Enfim, é preciso estudar e prestar muito mais atenção nestas vertentes e em seus métodos. São elas que estão se repetindo por aí... São elas que podem nos atacar de repente...
Alemanha expõe história do nazismo em memória ao aniversário do Holocausto
Notícias do New York Times - Tradução do G1
Ministro diz que país vai construir monumentos em homenagem a ciganos e gays mortos.

Nesta quarta (30) relembra-se o 75º aniversário da tomada do poder de Hitler.

A maioria dos países comemora os melhores momentos de sua história. A Alemanha, porém, não cansa de promover o que houve de pior na sua.

O gigantesco memorial do Holocausto que toma conta de uma parte do centro de Berlim só foi concluído depois de anos de polêmicas. Mas a construção de monumentos em memória ao ultraje nazista segue inabalável.

Na segunda-feira (28), o ministro da cultura da Alemanha, Bernd Neumann, anunciou que essa construção iniciaria em Berlim com dois monumentos, um próximo a Reichstag, em homenagem aos ciganos assassinados, conhecidos aqui como Sinti e Roma, e outro no perímetro da Porta de Brandenburg, aos gays e lésbicas mortos no Holocausto.

Em novembro, a Alemanha progrediu na tão adiada construção do centro Topografia do Terror no local que sediava a Gestapo e a SS. E em outubro, uma nova exposição enorme foi aberta no campo de concentração Bergen-Belsen. No campo de Dachau, próximo a Munique, será inaugurado um novo centro de visitação nos próximos meses. A cidade de Erfurt planeja construir um museu dedicado aos crematórios. Existem no momento duas exposições concorrentes sobre o papel das ferrovias alemãs na condução de milhões de pessoas à morte.

Nesta quarta-feira (30) relembra-se o 75º aniversário da tomada do poder de Hitler e do Partido Nazista na Alemanha, e a ocasião motivou um novo período de reflexão e análise do que aconteceu.

"Em que lugar do mundo já se viu um país que constrói memoriais para imortalizar sua própria vergonha?", questionou Avi Primor, ex-embaixador israelense na Alemanha, em um evento realizado em Erfurt na sexta-feira em memória ao Holocausto e à libertação de Auschwitz. "Somente os alemães tiveram essa coragem e humildade."

O esforço de fazer as pazes com a história se materializa não só nos prédios e exposições. O Departamento de Crimes Federais iniciou no ano passado uma investigação interna, na tentativa de esclarecer o passado nazista dos fundadores do partido após o término da guerra. Além disso, neste mês o promotor federal da Alemanha indeferiu o veredicto de culpado de Marinus van der Lubbe, o comunista holandês executado sob acusações de ter iniciado o incêndio de Reichstag. O 75º aniversário desse acontecimento será em 27 de fevereiro.

A experiência do nazismo está viva no debate público contemporâneo que aborda os mais variados temas: as tropas alemãs no Afeganistão, a baixa taxa de natalidade e a maneira de o país lidar com estrangeiros. Os motivos de o país parecer infinitamente obcecado pelo tema do nazismo é assunto de discussões intermináveis aqui. Esses motivos vão desde o temperamento filosófico da Alemanha ao simples choque diante da combinação sem precedentes de organização e brutalidade, até o sentimento de que o crime teve dimensões tão grandes que se espalhou como uma mácula pela cultura do país como um todo.

Sejam quais forem os motivos, à medida que os acontecimentos se tornam mais distantes e menos pessoais, esta sociedade é forçada a encarar a dúvida de como deveria preservar a memória de seus crimes e transgressões daqui para frente.

Nas décadas que sucederam a guerra, a questão central era como Hitler conseguiu chegar ao poder, disse Horst Moeller, diretor do Instituto de História Contemporânea, em uma entrevista. Até uma minissérie da televisão americana chamada "Holocausto", exibida na década de 1970, afetou a discussão na então Alemanha Ocidental, mudando o foco com muito mais intensidade para o sofrimento das próprias vítimas, como explicou Moeller.

Em 1969, Ruediger Nemitz começou a receber de volta as vítimas de Berlim exiladas pela tirania nazista, sendo a maioria esmagadora desse grupo composta por judeus. Berlim faz com que seus antigos cidadãos retornem para uma semana de visitas, com todas as despesas pagas, completando a iniciativa com uma recepção do prefeito.

O Programa de Convites de Ex-Cidadãos Perseguidos de Berlim, que trouxe cerca de 33 mil pessoas para visitar a cidade, chegou a ter 12 funcionários trabalhando em período integral. Agora restaram apenas Nemitz e um funcionário trabalhando meio período.

Contudo, o programa não está esmorecendo aos poucos devido à redução do suporte à preservação da memória do sofrido passado da Alemanha. Pelo contrário, em uma época em que o semi falido governo da cidade de Berlim foi obrigado a promover cortes significativos em outras áreas, Nemitz conta que todos os partidos políticos representando o parlamento da cidade apoiaram o programa e não diminuíram o orçamento de US$ 800 mil destinado a passagens aéreas, hotéis e tours desde pelo menos 2000.

"Quando o programa começou, eles eram adultos. Agora, são pessoas com quase nenhuma memória de Berlim", disse Nemitz em seu escritório no térreo do prédio da prefeitura. "Os que vêm hoje eram crianças na época." As visitas se encerrarão em 2010 ou 2011, segundo estimativas de Nemitz, já que o número de vítimas ainda vivas é muito pequeno.

É importante lembrar também que, além da dolorosa morte dos sobreviventes ao longo dos anos, a geração de Nemitz, daqueles que encararam os crimes de perto e lutaram para quebrar o silêncio de seus pais e professores, está começando a se aposentar. Quando o último grupo de visitação deixar Berlim, Nemitz, 61, que declarou ter medo de tirar férias e considera seu cargo mais como uma missão do que como um emprego, fechará as portas de seu escritório e se aposentará.

Há quem diga que os alemães jovens, que são obrigados a estudar com profundidade a era nazista e o Holocausto, deram poucas demonstrações de que deixariam o assunto morrer, apesar de sua distância dos acontecimentos. Afirma-se que a geração mais nova lida com o assunto não como uma fonte de culpa, mas de responsabilidade no panorama mundial pelo pacifismo e pela justiça social, incluindo a oposição à guerra no Iraque.

Outros afirmam que os crimes são tratados apenas superficialmente e que os jovens acabarão, talvez de forma menos latente, expressando sua exaustão do tema. "Não consigo deixar de sentir que uma parte desse contínuo 'Vamos construir monumentos; vamos construir museus aos judeus', seja um comportamento bastante ritualizado", declarou por telefone Susan Neiman, diretora do Einstein Forum, em Potsdam, organização internacional de pesquisa pública. "Preocupo-me muito se tudo isso não sairá pela culatra, tendo resultados contrários aos desejados."

A relação da Alemanha com sua história nazista até hoje costuma provocar controvérsias, como no caso das exposições concorrentes sobre as ferrovias. A primeira, chamada Train of Commemoration, é uma locomotiva que carrega itens de exposição que detalham como as crianças judias eram assassinadas no Holocausto.

O trem atravessa as cidades da Alemanha e fica aberto à visitação durante o percurso, tendo Auschwitz como destino final. Os organizadores da exposição reclamam que em vez de apoiar o projeto, a companhia ferroviária nacional Deutsche Bahn, prejudicou a mostra, fazendo com que os organizadores pagassem pelo uso dos trilhos mesmo enquanto relembram a história de crimes das ferrovias.

A segunda exposição, patrocinada pela própria Deutsche Bahn, foi inaugurada em Berlim na estação de trem Potsdamer Platz na semana passada. Os críticos desdenharam a exposição oficial como uma resposta à atenção da primeira exposição. Mas a exposição da Deutsche Bahn de fato mostra como a predecessora da empresa, a Reichsbahn, transportou cerca de 3 milhões de passageiros conduzindo-as à morte; é repleta de estatísticas e fotografias tenebrosas e dolorosas e histórias fortes de algumas das pessoas que sucumbiram.

Qualquer fracasso em lidar com a história com o devido zelo imediatamente atrai atenção nacional. Em Munique, no último final de semana, um desfile tradicional de carnaval foi realizado no Dia Internacional de Memória ao Holocausto, celebrado todos os anos em 27 de janeiro. A coincidência das datas provocou uma enxurrada de publicidade negativa para a cidade. Charlotte Knobloch, líder da organização nacional dos judeus, na Alemanha, declarou que o episódio "desonra e insulta as vítimas."

Stefan Hauf, porta-voz da cidade, declarou: "Não houve intenção de fazer nenhuma afronta." Ele explicou que a cidade poderia ter mudado a data do desfile, como o fez a cidade de Regensburg, mas o problema foi que muitos participantes estavam chegando de outros países e ficou impossível alterar a data de última hora. "A data estava marcada no calendário público desde maio do ano passado", disse Hauf.

Munique exerceu um papel especial na história nazista. Foi lá que o partido nacional-socialista teve ascensão e foi o local do Beer Hall Putsch de 1923, a fracassada tentativa de golpe de estado encerrada no mito nazista. Hitler acabou declarando a cidade como a Capital do Movimento. Ao contrário de Berlim, que ficou conhecida como a cidade que possui um memorial construído em praticamente cada esquina, Munique foi muitas vezes criticada por minimizar a importância de sua história.

"Munique era a Capital do Movimento. Desde 1945, é a capital do esquecimento", declarou Wolfram P. Kastner, artista que contou que ao longo dos anos brigou com o governo da cidade para obter autorizações e permissões para, por meio da arte performática, manter viva a memória do Holocausto.

O governo da cidade de Munique acredita que foi bastante ativo na tentativa de preservar a história daquela época. Em uma pequena caminhada saindo da histórica Marienplatz na cidade, vê-se todo um complexo de novos edifícios dedicado ao passado e ao presente dos judeus da cidade. A sinagoga nesse local foi inaugurada em novembro de 2006 no aniversário dos ataques Kristallnacht liderados pelos nazistas contra os estabelecimentos e locais de prece dos judeus e contra os próprios judeus. O Museu Judaico e um novo centro comunitário foram inaugurados em Munique no ano passado.

A cidade está trabalhando no projeto de um novo museu que será construído onde ficava a sede do partido nazista. O futuro Centro de Documentação da História do Nacional-Socialismo deve ser inaugurado em 2011. O objetivo declarado, de acordo com o site do museu, "é criar um local de aprendizagem que sirva para o futuro."

Focada nesse objetivo, Angelika Baumann, do Departamento de Artes e Cultura da cidade, está promovendo workshops com alunos de 14 a 18 anos, incluindo estudantes que se preparam para a universidade e alunos de escolas técnicas e crianças que não possuem origem etnicamente alemã. "Planejamos alcançar as pessoas que ainda nem nasceram", disse Baumann.

Tradução: Claudia Freire

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Fragmentos da Teoria Consciência e Liberdade
Teoria em construção (Clique aqui para ler o resto)
(...) E é justamente nesse ponto que entra a razão de ser dessa teoria, ou seja, a novidade totalitária. O totalitarismo faz uma coisa que nenhum outro sistema tinha conseguido fazer antes. E que coisa é essa ? O totalitarismo retirou a consciência dos indivíduos. Logo, retirou completamente a liberdade dos Seres Humanos que pertenciam àquele sistema. Todos os movimentos anteriores atingiam o indivíduo criando regras e normas que condicionavam as consciências e limitavam a liberdade, mas nenhum sistema jamais havia retirado a consciência das pessoas. Retirando a consciência, ele retirou completamente a liberdade dos indivíduos.

Mas o totalitarismo foi além, muito além disso, ele não só retirou a consciência, mas a substituiu por outra consciência: a consciência do sistema totalitário. As pessoas perderam a sua consciência individual, logo, perderam a sua liberdade individual; e receberam, em troca, a consciência do sistema, logo, passaram a ter a liberdade do sistema (poder de agir de acordo com a consciência do sistema). A consciência do sistema gera a liberdade do sistema.

Mas o que exatamente quer dizer perda de consciência, seguida de substituição de consciência ? Em termos excessivamente genéricos é uma espécie de lavagem cerebral em massa. Retira a consciência do indivíduo, fazendo-o perder a sua identidade e individualidade, imergindo-o em uma multidão de iguais.

Por isso, em um sistema totalitário a mídia, a propaganda e o terror são tão importantes. Por isso, o vazio de pensamento, a mediocridade e a indiferença são essenciais para o sucesso inicial do sistema. São características comuns no homem da massa, características que facilitam e garantem o sucesso de substituição de consciência dos indivíduos. Pessoas com tais características tem suas consciências facilmente arrancada e substituída por outra. São pessoas dóceis, facilmente controladas e dominadas. Pessoas que não percebem que seus pensamentos são pensamentos do sistema, que suas idéias e ideais são idéias e ideais do sistema, que suas ações são ações do sistema. A consciência que possuem é a consciência do sistema. Pensam igual o sistema. Falam igual o sistema. Agem igual o sistema. Fazem o que o sistema faz.

A retirada de consciência, assim como a substituição das consciência individuais é muito mais fácil onde existe massa. Isto porque, de acordo com Hannah Arendt:

Os movimentos totalitários são possíveis onde quer que existam massas que, por um motivo ou outro, desenvolveram certo gosto pela organização política. As massas não se unem pela consciência de um interesse comum e falta-lhes aquela específica articulação de classes que se expressa em objetivos determinados, limitados e atingíveis. O termo massa só se aplica quando lidamos com pessoas que, simplesmente devido ao seu número, ou à sua indiferença, ou a uma mistura de ambos, não se podem integrar numa organização profissional ou sindicato de trabalhadores. Potencialmente, as massas existem em qualquer país e constituem a maioria das pessoas neutras e politicamente indiferentes, que nunca se filiam a um partido e raramente exercem o poder de voto. (p. 399)

Percebemos, portanto, que o homem da massa é um homem que não desenvolveu a sua consciência política e pouco exercita a sua consciência social, que também é atrofiada. Logo, não tem um pensamento crítico evidente e pode ser facilmente controlado, seguindo a voz de quem grita mais alto. Este homem, que integra a massa de iguais, é o modelo ideal para a ação da mão invisível do totalitarismo.

É um sistema que não admite questionamentos. Quaisquer questionamentos põe o sistema em risco, podendo romper a estrutura e mostrar as reais intenções e os objetivos da coisa. O todo é visto apenas por quem estrutura e controla o sistema. E o homem da massa não questiona nada, apenas executa as ordens. Logo, é o homem ideal para assumir a função de agente totalitário. É o indivíduo totalitário natural, precisando apenas de treinamento básico para o posto futuro.

O método totalitário de retirada de consciência dos indivíduos, acompanhados pela instalação da consciência dos sistema totalitário em cada pessoa, nas palavras de Hannah Arendt, é a produção/construção de uma massa atomizada e amorfa. A mão totalitária invisível ataca toda a sociedade de uma vez. E o registro mais preciso do uso desse método é descrito, por Hannah Arendt, no Stalinismo:

Desde os tempos antigos, a imposição da igualdade de condições aos governados constituiu um dos principais alvos dos despotismos e das tiranias, mas essa equalização não basta para o governo totalitário, porque deixa ainda intactos certos laços não políticos entre os subjugados, tais como laços de família e de interesses culturais comuns. Se o totalitarismo encarar seriamente as suas pretensões, deve considerar sem desvio a questão em que tem de "acabar de uma vez para sempre com a neutralidade de xadrez", isto é, com a existência autônoma de qualquer espécie de atividade. Os amantes do "xadrez por amor do xadrez", adequadamente comparados pelo seu liquidatário com os amantes da "arte pela arte", ainda não são de maneira absoluta elementos atomizados numa sociedade de massas cuja uniformidade completamente heterogênea constitui uma das condições primárias do totalitarismo.

Do ponto de vista dos governantes totalitários, uma sociedade dedicada ao xadrez por amor ao xadrez é apenas diferentes e menos perigosa em grau do que uma classe de agricultores por amor à agricultura. Hitler definiu muito adequadamente o membro da SS como o novo tipo de homem que em nenhuma circunstância jamais fará qualquer coisa "por ela mesma".

A atomização de massas na sociedade soviética foi realizada através do hábil uso de sucessivos expurgos que invariavelmente precediam uma verdadeira liquidação em grupo. A fim de destruir todos os laços sociais e familiares, os expurgos eram realizados de modo a ameaçar com o mesmo destino o réu e todas as pessoas que privavam com ele, desde os simples conhecidos aos amigos mais íntimos e aos familiares. A conseqüência do singelo estratagema de "culpa por associação" reside no seguinte: logo que um homem é acusado, os seus velhos amigos são transformados imediatamente nos mais implacáveis inimigos; para salvarem a própria pele, oferecem informações e apresentam-se diligentemente com denúncias que corroborem as provas não existentes contra ele; obviamente, esta é a única maneira de comprovar a sua lealdade.

Retrospectivamente, tentarão provar que as suas relações ou a sua amizade com o acusado constituíam apenas pretexto para o espiar ou para o denunciar como sabotador, trotskista, espião estrangeiro ou fascista. Sendo o mérito "aferido pelo número de denúncias feitas por velhos camaradas" , é óbvio que a cautela mais elementar exige que uma pessoa evite todos os contactos íntimos, se possível - não para evitar a descoberta dos pensamentos próprios, mas para eliminar, nos casos quase certos de futuros incômodos, todas as pessoas que possam ter não só um ínfimo interesse em denunciá-la, mas também a necessidade irresistível de provocar a sua ruína simplesmente porque a própria vida do provável denunciante corre perigo.

Em última análise, foi através do desenvolvimento deste estratagema até aos seus mais fantásticos extremos que governantes bolcheviques conseguiram criar uma sociedade atomizada e individualizada, como nunca se viu igual e que eventos ou catástrofes só por si dificilmente poderiam originar. (p. 412-413)

(...) Os movimentos totalitários são organizações maciças de indivíduos atomizados e isolados. Distinguem-se dos outros partidos e movimentos pela exigência de lealdade total, irrestrita, incondicional e inalterável de cada membro individual. Essa exigência é feita pelos líderes dos movimentos totalitários mesmo antes de tomarem o poder e decorre da alegação, já contida na sua ideologia, de que a organização abrangerá, no devido tempo, toda a raça humana. Contudo, onde o governo totalitário não é preparado por um movimento totalitário, o movimento tem de ser organizado depois, e as condições para o seu crescimento têm de ser artificialmente criadas de modo a possibilitar a lealdade total, que é a base psicológica do domínio total. Não se pode esperar essa lealdade a não ser de seres humanos completamente isolados que, desprovidos de outros laços sociais - de família, amizade, camaradagem - só adquirem o sentido de terem lugar neste mundo quando participam de um movimento ou pertencem a um Partido.(p. 414)

Portanto, esta atomização das massas, citada por Hannah Arendt, é um método eficiente para eliminar a consciência individual das pessoas. Este método elimina a consciência individual através da eliminação das partes, das outras consciências que compõem a consciência individual. Primeiro, ataca a consciência política, em seguida a consciência social.

Logo após a consciência coletiva e, por último, assimila a consciência individual como um todo. Ao mesmo que destrói a individualidade da pessoa, a consciência individual, o totalitarismo insere a consciência do sistema totalitário no indivíduo. Na descrição isto aparece no fato dos velhos amigos serem transformados em delatores ou nos mais implacáveis inimigos. Transformados em zumbis que protegem o sistema totalitário detectando e denunciando a existência de pessoas que ainda não foram assimiladas pelo sistema, ou seja, de pessoas que ainda possuem intactas a consciência individual natural.

No rodapé da página 413 desta obra "O Sistema Totalitário", tradução portuguesa de "The origins Totalitarianism", Hannah Arendt cita o relato de Nadiedja Mandelstam que viveu o horror da ação totalitária na URSS e assistiu de perto a mão invisível do sistema totalitário eliminando as consciências, uma por uma, até destruir a consciência principal e a individualidade de cada pessoa:

Ninguém confiava em ninguém, e cada conhecido era um possível informador da polícia. Às vezes, parecia que todo o país estava a sofrer de mania de perseguição - uma doença de que ainda hoje não estamos curados. A nossa aflição não era sem fundamentos: sentíamos-nos como se estivéssemos constantemente expostos a uma câmara de raios-X, pois a espionagem mútua era o principal instrumento de controle do Estado.

"Não há que ter medo", havia dito Stálin, "é uma tarefa como todas as outras". Nas escolas, um sistema de "autogoverno" na sala de aula, com monitores e representantes do Komsomol, possibilitava aos professores extrair dos alunos as informações de que necessitavam. Os estudantes tinham ordem de espiar os professores.

(...) Tudo isto era parte da nossa vida diária, e acontecia numa vasta escala e afetava a todos indiscriminadamente. Cada família reexaminava constantemente o seu círculo de relações, procurando determinar quais eram os provocadores, os informadores e os traidores. Depois de 1937, as pessoas simplesmente deixaram de se encontrar umas com as outras: a polícia secreta havia atingido o seu objetivo final. Além de garantir a existência de um constante fluxo de informações, a polícia secreta havia isolado completamente os indivíduos.
Ao tomar conhecimento da última prisão, nunca perguntávamos: "Por que ele foi preso ?" Mas nós éramos uma exceção. Para muita gente aturdida pelo medo, fazer essa pergunta era um modo de alimentar alguma esperança: se os outros estavam a ser presos por algum motivo, então eles não seriam presos porque nada haviam feito de errado.

Cada um procurava encontrar um motivo mais engenhoso que o outro para justificar essas prisões: "Bom, ela é contrabandista mesmo, você sabe"; "não se pode negar que ele foi além dos limites"; "eu mesmo ouvi quando ele disse..." Ou então "não se podia esperar outra coisa - aquele sujeito não presta"; "sempre achei que havia algo errado nele"; "ele não é um de nós". Isto era motivo suficiente para prender e destruir uma pessoa: "não é um de nós", "fala demais", "é mau sujeito".

Estas afirmações nada mais eram que variações de uma cantiga que havíamos escutado pela primeira vez em 1917. A opinião pública e a polícia inventavam sem cessar novas variações mais ilustrativas, alimentando o fogo sem o qual não há fumo. Por isto, no nosso círculo era proibido fazer a pergunta: "porque foi ele preso ?" " Por que ?" exclamava Akhmatova, indignada, sempre que algum de nós, contagiado pelo clima reinante à nossa volta, fazia essa pergunta "Você já devia saber há muito tempo que as pessoas são presas por nada !" (Nadiedja Mandelstam).

Olhando para Eichmann, vemos que ele tinha vontade, que ele seguia a sua vontade, mas ele não era livre, pois a sua consciência estava contaminada pelo nazismo. Os pensamentos que circulavam na consciência de Eichmann e que emitia ordens, formando a sua vontade, eram pensamentos do sistema totalitário. Logo, a liberdade de Eichmann era a liberdade do sistema totalitário. Isto porque a vontade dele era formada por uma consciência movida por informações e conhecimentos introjetados pelo movimento nazista. A consciência de Eichmann era a consciência do sistema, pois os pensamentos de Eichmann eram sentenças prontas, formulas prontas emitidas pelo nazismo. Eichmann não questiona as sentenças e nem as fórmulas. Não processava informações e nem os conhecimentos. Apenas executava as ordens originadas.

Eichmann chama este comportamento de obediência cadavérica (Kadavergehorsam). Isto é contado por Hannah Arendt na obra Eichmann em Jerusalém:

Assim sendo, eram muitas as oportunidades de Eichmann se sentir como Pôncios Pilatos, e à medida que passavam os meses e os anos, ele perdeu a necessidade de sentir fosse o que fosse. Era assim que as coisas eram, essa era a nova lei da terra, baseada nas ordens do Führer; tanto quanto podia ver, seus atos eram os de um cidadão respeitador das leis. Ele cumpria o seu dever, como repetiu insistentemente à polícia e à corte; ele não só obedecia ordens, ele também obedecia à lei. (...)

Como além de cumprir aquilo que ele concebia como deveres de um cidadão respeitador das leis, ele também agia sob ordens - sempre o cuidado de estar "coberto" -, ele acabou completamente confuso e terminou frisando alternativamente as virtudes e os vícios da obediência cega, ou a "obediência cadavérica" (kadavergehorsam), como ele próprio a chamou. (p. 152)

E como dissemos anteriormente, aceitar sentenças prontas significa não processar nada, apenas executar aquilo que veio pronto. Este é o truque do sistema: introjetar sentenças prontas nos indivíduos que integram o sistema. Por isso, fala-se em vazio de pensamento. Vazio de pensamento de um ser humano normal. Porém consciência repleta de pensamentos do sistema totalitário: anti-semitismo, extermínio, ordens do Führer, câmara de gás, etc.

Outra passagem de Hannah Arendt que evidencia a retirada de consciência individual está na p. 394-395 da obra "O Sistema Totalitário", tradução portuguesa de "The origins Totalitarianism" e diz:

Mas o que é desconcertante no sucesso do totalitarismo é o verdadeiro altruísmo dos seus adeptos. É compreensível que as convicções de um nazi ou bolchevista não sejam abaladas por crimes cometidos contra os inimigos do movimento, mas o facto espantoso é que ele não vacila quando o monstro começa a devorar os próprios filhos, e nem mesmo quando ele próprio se torna vítima da opressão, quando é incriminado e condenado, quando é expulso do partido e enviado para um campo de concentração ou de trabalhos forçados. Pelo contrário: para assombro de todo o mundo civilizado, estará até disposto a colaborar com a própria condenação e tramar a própria sentença de morte, contanto que o seu "status" como membro do movimento permaneça intacto.

Seria ingênuo pensar que essa obstinada convicção, que sobrevive a todas as experiências reais e anula todo o interesse pessoal, seja mera expressão de idealismo ardente. O idealismo, tolo ou heróico, nasce da decisão e da convicção individuais, mas forja-se na experiência. O fanatismo dos movimentos totalitários, ao contrário das demais formas de idealismo, desaparece no momento em que o movimento deixa em apuros os seus seguidores fanáticos, matando neles qualquer resto de convicção que possa ter sobrevivido ao colapso do próprio movimento.

Mas, dentro da estrutura organizacional do movimento, enquanto ele permanece inteiro, os membros fanatizados são inatingíveis pela experiência e pelo argumento; a identificação com o movimento e o conformismo total parece ter destruído a própria capacidade de sentir, mesmo que seja algo tão extremo como a tortura ou o medo da morte. (p. 394-395)
Fragmentos da Teoria Consciência e Liberdade
Teoria em construção (Clique aqui para ler o resto)
(...) E é justamente nesse ponto que entra a razão de ser dessa teoria, ou seja, a novidade totalitária. O totalitarismo faz uma coisa que nenhum outro sistema tinha conseguido fazer antes. E que coisa é essa ? O totalitarismo retirou a consciência dos indivíduos. Logo, retirou completamente a liberdade dos Seres Humanos que pertenciam àquele sistema. Todos os movimentos anteriores atingiam o indivíduo criando regras e normas que condicionavam as consciências e limitavam a liberdade, mas nenhum sistema jamais havia retirado a consciência das pessoas. Retirando a consciência, ele retirou completamente a liberdade dos indivíduos.

Mas o totalitarismo foi além, muito além disso, ele não só retirou a consciência, mas a substituiu por outra consciência: a consciência do sistema totalitário. As pessoas perderam a sua consciência individual, logo, perderam a sua liberdade individual; e receberam, em troca, a consciência do sistema, logo, passaram a ter a liberdade do sistema (poder de agir de acordo com a consciência do sistema). A consciência do sistema gera a liberdade do sistema.

Mas o que exatamente quer dizer perda de consciência, seguida de substituição de consciência ? Em termos excessivamente genéricos é uma espécie de lavagem cerebral em massa. Retira a consciência do indivíduo, fazendo-o perder a sua identidade e individualidade, imergindo-o em uma multidão de iguais.

Por isso, em um sistema totalitário a mídia, a propaganda e o terror são tão importantes. Por isso, o vazio de pensamento, a mediocridade e a indiferença são essenciais para o sucesso inicial do sistema. São características comuns no homem da massa, características que facilitam e garantem o sucesso de substituição de consciência dos indivíduos. Pessoas com tais características tem suas consciências facilmente arrancada e substituída por outra. São pessoas dóceis, facilmente controladas e dominadas. Pessoas que não percebem que seus pensamentos são pensamentos do sistema, que suas idéias e ideais são idéias e ideais do sistema, que suas ações são ações do sistema. A consciência que possuem é a consciência do sistema. Pensam igual o sistema. Falam igual o sistema. Agem igual o sistema. Fazem o que o sistema faz.

A retirada de consciência, assim como a substituição das consciência individuais é muito mais fácil onde existe massa. Isto porque, de acordo com Hannah Arendt:

Os movimentos totalitários são possíveis onde quer que existam massas que, por um motivo ou outro, desenvolveram certo gosto pela organização política. As massas não se unem pela consciência de um interesse comum e falta-lhes aquela específica articulação de classes que se expressa em objetivos determinados, limitados e atingíveis. O termo massa só se aplica quando lidamos com pessoas que, simplesmente devido ao seu número, ou à sua indiferença, ou a uma mistura de ambos, não se podem integrar numa organização profissional ou sindicato de trabalhadores. Potencialmente, as massas existem em qualquer país e constituem a maioria das pessoas neutras e politicamente indiferentes, que nunca se filiam a um partido e raramente exercem o poder de voto. (p. 399)

Percebemos, portanto, que o homem da massa é um homem que não desenvolveu a sua consciência política e pouco exercita a sua consciência social, que também é atrofiada. Logo, não tem um pensamento crítico evidente e pode ser facilmente controlado, seguindo a voz de quem grita mais alto. Este homem, que integra a massa de iguais, é o modelo ideal para a ação da mão invisível do totalitarismo.

É um sistema que não admite questionamentos. Quaisquer questionamentos põe o sistema em risco, podendo romper a estrutura e mostrar as reais intenções e os objetivos da coisa. O todo é visto apenas por quem estrutura e controla o sistema. E o homem da massa não questiona nada, apenas executa as ordens. Logo, é o homem ideal para assumir a função de agente totalitário. É o indivíduo totalitário natural, precisando apenas de treinamento básico para o posto futuro.

O método totalitário de retirada de consciência dos indivíduos, acompanhados pela instalação da consciência dos sistema totalitário em cada pessoa, nas palavras de Hannah Arendt, é a produção/construção de uma massa atomizada e amorfa. A mão totalitária invisível ataca toda a sociedade de uma vez. E o registro mais preciso do uso desse método é descrito, por Hannah Arendt, no Stalinismo:

Desde os tempos antigos, a imposição da igualdade de condições aos governados constituiu um dos principais alvos dos despotismos e das tiranias, mas essa equalização não basta para o governo totalitário, porque deixa ainda intactos certos laços não políticos entre os subjugados, tais como laços de família e de interesses culturais comuns. Se o totalitarismo encarar seriamente as suas pretensões, deve considerar sem desvio a questão em que tem de "acabar de uma vez para sempre com a neutralidade de xadrez", isto é, com a existência autônoma de qualquer espécie de atividade. Os amantes do "xadrez por amor do xadrez", adequadamente comparados pelo seu liquidatário com os amantes da "arte pela arte", ainda não são de maneira absoluta elementos atomizados numa sociedade de massas cuja uniformidade completamente heterogênea constitui uma das condições primárias do totalitarismo.

Do ponto de vista dos governantes totalitários, uma sociedade dedicada ao xadrez por amor ao xadrez é apenas diferentes e menos perigosa em grau do que uma classe de agricultores por amor à agricultura. Hitler definiu muito adequadamente o membro da SS como o novo tipo de homem que em nenhuma circunstância jamais fará qualquer coisa "por ela mesma".

A atomização de massas na sociedade soviética foi realizada através do hábil uso de sucessivos expurgos que invariavelmente precediam uma verdadeira liquidação em grupo. A fim de destruir todos os laços sociais e familiares, os expurgos eram realizados de modo a ameaçar com o mesmo destino o réu e todas as pessoas que privavam com ele, desde os simples conhecidos aos amigos mais íntimos e aos familiares. A conseqüência do singelo estratagema de "culpa por associação" reside no seguinte: logo que um homem é acusado, os seus velhos amigos são transformados imediatamente nos mais implacáveis inimigos; para salvarem a própria pele, oferecem informações e apresentam-se diligentemente com denúncias que corroborem as provas não existentes contra ele; obviamente, esta é a única maneira de comprovar a sua lealdade.

Retrospectivamente, tentarão provar que as suas relações ou a sua amizade com o acusado constituíam apenas pretexto para o espiar ou para o denunciar como sabotador, trotskista, espião estrangeiro ou fascista. Sendo o mérito "aferido pelo número de denúncias feitas por velhos camaradas" , é óbvio que a cautela mais elementar exige que uma pessoa evite todos os contactos íntimos, se possível - não para evitar a descoberta dos pensamentos próprios, mas para eliminar, nos casos quase certos de futuros incômodos, todas as pessoas que possam ter não só um ínfimo interesse em denunciá-la, mas também a necessidade irresistível de provocar a sua ruína simplesmente porque a própria vida do provável denunciante corre perigo.

Em última análise, foi através do desenvolvimento deste estratagema até aos seus mais fantásticos extremos que governantes bolcheviques conseguiram criar uma sociedade atomizada e individualizada, como nunca se viu igual e que eventos ou catástrofes só por si dificilmente poderiam originar. (p. 412-413)

(...) Os movimentos totalitários são organizações maciças de indivíduos atomizados e isolados. Distinguem-se dos outros partidos e movimentos pela exigência de lealdade total, irrestrita, incondicional e inalterável de cada membro individual. Essa exigência é feita pelos líderes dos movimentos totalitários mesmo antes de tomarem o poder e decorre da alegação, já contida na sua ideologia, de que a organização abrangerá, no devido tempo, toda a raça humana. Contudo, onde o governo totalitário não é preparado por um movimento totalitário, o movimento tem de ser organizado depois, e as condições para o seu crescimento têm de ser artificialmente criadas de modo a possibilitar a lealdade total, que é a base psicológica do domínio total. Não se pode esperar essa lealdade a não ser de seres humanos completamente isolados que, desprovidos de outros laços sociais - de família, amizade, camaradagem - só adquirem o sentido de terem lugar neste mundo quando participam de um movimento ou pertencem a um Partido.(p. 414)

Portanto, esta atomização das massas, citada por Hannah Arendt, é um método eficiente para eliminar a consciência individual das pessoas. Este método elimina a consciência individual através da eliminação das partes, das outras consciências que compõem a consciência individual. Primeiro, ataca a consciência política, em seguida a consciência social.

Logo após a consciência coletiva e, por último, assimila a consciência individual como um todo. Ao mesmo que destrói a individualidade da pessoa, a consciência individual, o totalitarismo insere a consciência do sistema totalitário no indivíduo. Na descrição isto aparece no fato dos velhos amigos serem transformados em delatores ou nos mais implacáveis inimigos. Transformados em zumbis que protegem o sistema totalitário detectando e denunciando a existência de pessoas que ainda não foram assimiladas pelo sistema, ou seja, de pessoas que ainda possuem intactas a consciência individual natural.

No rodapé da página 413 desta obra "O Sistema Totalitário", tradução portuguesa de "The origins Totalitarianism", Hannah Arendt cita o relato de Nadiedja Mandelstam que viveu o horror da ação totalitária na URSS e assistiu de perto a mão invisível do sistema totalitário eliminando as consciências, uma por uma, até destruir a consciência principal e a individualidade de cada pessoa:

Ninguém confiava em ninguém, e cada conhecido era um possível informador da polícia. Às vezes, parecia que todo o país estava a sofrer de mania de perseguição - uma doença de que ainda hoje não estamos curados. A nossa aflição não era sem fundamentos: sentíamos-nos como se estivéssemos constantemente expostos a uma câmara de raios-X, pois a espionagem mútua era o principal instrumento de controle do Estado.

"Não há que ter medo", havia dito Stálin, "é uma tarefa como todas as outras". Nas escolas, um sistema de "autogoverno" na sala de aula, com monitores e representantes do Komsomol, possibilitava aos professores extrair dos alunos as informações de que necessitavam. Os estudantes tinham ordem de espiar os professores.

(...) Tudo isto era parte da nossa vida diária, e acontecia numa vasta escala e afetava a todos indiscriminadamente. Cada família reexaminava constantemente o seu círculo de relações, procurando determinar quais eram os provocadores, os informadores e os traidores. Depois de 1937, as pessoas simplesmente deixaram de se encontrar umas com as outras: a polícia secreta havia atingido o seu objetivo final. Além de garantir a existência de um constante fluxo de informações, a polícia secreta havia isolado completamente os indivíduos.
Ao tomar conhecimento da última prisão, nunca perguntávamos: "Por que ele foi preso ?" Mas nós éramos uma exceção. Para muita gente aturdida pelo medo, fazer essa pergunta era um modo de alimentar alguma esperança: se os outros estavam a ser presos por algum motivo, então eles não seriam presos porque nada haviam feito de errado.

Cada um procurava encontrar um motivo mais engenhoso que o outro para justificar essas prisões: "Bom, ela é contrabandista mesmo, você sabe"; "não se pode negar que ele foi além dos limites"; "eu mesmo ouvi quando ele disse..." Ou então "não se podia esperar outra coisa - aquele sujeito não presta"; "sempre achei que havia algo errado nele"; "ele não é um de nós". Isto era motivo suficiente para prender e destruir uma pessoa: "não é um de nós", "fala demais", "é mau sujeito".

Estas afirmações nada mais eram que variações de uma cantiga que havíamos escutado pela primeira vez em 1917. A opinião pública e a polícia inventavam sem cessar novas variações mais ilustrativas, alimentando o fogo sem o qual não há fumo. Por isto, no nosso círculo era proibido fazer a pergunta: "porque foi ele preso ?" " Por que ?" exclamava Akhmatova, indignada, sempre que algum de nós, contagiado pelo clima reinante à nossa volta, fazia essa pergunta "Você já devia saber há muito tempo que as pessoas são presas por nada !" (Nadiedja Mandelstam).

Olhando para Eichmann, vemos que ele tinha vontade, que ele seguia a sua vontade, mas ele não era livre, pois a sua consciência estava contaminada pelo nazismo. Os pensamentos que circulavam na consciência de Eichmann e que emitia ordens, formando a sua vontade, eram pensamentos do sistema totalitário. Logo, a liberdade de Eichmann era a liberdade do sistema totalitário. Isto porque a vontade dele era formada por uma consciência movida por informações e conhecimentos introjetados pelo movimento nazista. A consciência de Eichmann era a consciência do sistema, pois os pensamentos de Eichmann eram sentenças prontas, formulas prontas emitidas pelo nazismo. Eichmann não questiona as sentenças e nem as fórmulas. Não processava informações e nem os conhecimentos. Apenas executava as ordens originadas.

Eichmann chama este comportamento de obediência cadavérica (Kadavergehorsam). Isto é contado por Hannah Arendt na obra Eichmann em Jerusalém:

Assim sendo, eram muitas as oportunidades de Eichmann se sentir como Pôncios Pilatos, e à medida que passavam os meses e os anos, ele perdeu a necessidade de sentir fosse o que fosse. Era assim que as coisas eram, essa era a nova lei da terra, baseada nas ordens do Führer; tanto quanto podia ver, seus atos eram os de um cidadão respeitador das leis. Ele cumpria o seu dever, como repetiu insistentemente à polícia e à corte; ele não só obedecia ordens, ele também obedecia à lei. (...)

Como além de cumprir aquilo que ele concebia como deveres de um cidadão respeitador das leis, ele também agia sob ordens - sempre o cuidado de estar "coberto" -, ele acabou completamente confuso e terminou frisando alternativamente as virtudes e os vícios da obediência cega, ou a "obediência cadavérica" (kadavergehorsam), como ele próprio a chamou. (p. 152)

E como dissemos anteriormente, aceitar sentenças prontas significa não processar nada, apenas executar aquilo que veio pronto. Este é o truque do sistema: introjetar sentenças prontas nos indivíduos que integram o sistema. Por isso, fala-se em vazio de pensamento. Vazio de pensamento de um ser humano normal. Porém consciência repleta de pensamentos do sistema totalitário: anti-semitismo, extermínio, ordens do Führer, câmara de gás, etc.

Outra passagem de Hannah Arendt que evidencia a retirada de consciência individual está na p. 394-395 da obra "O Sistema Totalitário", tradução portuguesa de "The origins Totalitarianism" e diz:

Mas o que é desconcertante no sucesso do totalitarismo é o verdadeiro altruísmo dos seus adeptos. É compreensível que as convicções de um nazi ou bolchevista não sejam abaladas por crimes cometidos contra os inimigos do movimento, mas o facto espantoso é que ele não vacila quando o monstro começa a devorar os próprios filhos, e nem mesmo quando ele próprio se torna vítima da opressão, quando é incriminado e condenado, quando é expulso do partido e enviado para um campo de concentração ou de trabalhos forçados. Pelo contrário: para assombro de todo o mundo civilizado, estará até disposto a colaborar com a própria condenação e tramar a própria sentença de morte, contanto que o seu "status" como membro do movimento permaneça intacto.

Seria ingênuo pensar que essa obstinada convicção, que sobrevive a todas as experiências reais e anula todo o interesse pessoal, seja mera expressão de idealismo ardente. O idealismo, tolo ou heróico, nasce da decisão e da convicção individuais, mas forja-se na experiência. O fanatismo dos movimentos totalitários, ao contrário das demais formas de idealismo, desaparece no momento em que o movimento deixa em apuros os seus seguidores fanáticos, matando neles qualquer resto de convicção que possa ter sobrevivido ao colapso do próprio movimento.

Mas, dentro da estrutura organizacional do movimento, enquanto ele permanece inteiro, os membros fanatizados são inatingíveis pela experiência e pelo argumento; a identificação com o movimento e o conformismo total parece ter destruído a própria capacidade de sentir, mesmo que seja algo tão extremo como a tortura ou o medo da morte. (p. 394-395)

sábado, 5 de janeiro de 2008

Consciência, liberdade e responsabilidade
Uma questão importante que surge nesta Teoria da Consciência e Liberdade é: qual é a relação entre a consciência, a liberdade e a responsabilidade ? Agir com consciência significa agir com responsabilidade ? Ter liberdade significa ter responsabilidade ?

Esta questão fica ainda mais interessante quando eu penso nos nazistas que operavam o sistema totalitário. Eles agiam de acordo com a própria consciência ? Agiam. Logo, eles eram livres. Além disso, eles tinham informação e conhecimento. Eram pessoas de extensa cultura, amantes da artes e conhecedores dos clássicos do pensamento. Inclusive, Eichmann lia Kant. Portanto, como se enquadra a ação dos nazistas nesta Teoria da Consciência ?

Vamos pensar, gafanhoto !!! A Teoria da Consciência e Liberdade define a Liberdade como poder de agir de acordo com a própria consciência. Agir de acordo com a própria consciência implica, necessariamente, em respeitar o outro, em respeitar a liberdade do outro, em respeitar a consciência do outro. Caso contrário, a liberdade não é possível. Não é possível porque o agir de acordo com a própria consciência exige que os outros me deixem agir de acordo com a minha consciência. Exige que eu deixe os outros agirem de acordo com as suas consciências.

E o mecanismo encontrado pela consciência individual, para impedir os outros de interferirem na minha liberdade, ou seja, interferirem no meu poder de agir de acordo com a minha consciência, assim como para obrigar-me a respeitar a liberdade dos outros, respeitar a expressão da consciência dos outros, é a consciência coletiva (no âmbito familiar ou de grupos próximos - normas tácitas e costumeiras - moral, etc) e a consciência social (no âmbito da sociedade, do país ou da comunidade internacional - normas tácitas e cogentes - Direito, etc).

Este mecanismo da consciência coletiva e da consciência social, subsistemas da consciência individual, possui um conjunto de normas, regras e valores que emitem sentenças prontas, em determinados casos ou diante de certas ações, para a consciência individual, inibindo comportamentos, ações e vontades que contrariem os interesses da coletividade, ou interesses da sociedade, ou que violem a liberdade do outro. Este mecanismo é de auto-proteção e de proteção do grupo. Violando as regras da família, dissolve-se o grupo familiar. E a dissolução do grupo familiar implica em menos proteção, em menos alimento, em menor possibilidade de sobrevivência.

Biologicamente falando, quem atua contra o grupo tende a se isolar, a viver separado. Vivendo sozinho e separado tende a ser atacado e exterminado mais rapidamente, não passando adiante os genes que o induziu ao isolamento. Já quem vive em grupo tem uma maior chance de sobrevivência e de passar seus genes adiante. Há uma propensão genética nisso. E esta propensão genética, biológica, é potencializada pela propensão cultural. Basta lembrar que foi a sobrevivência em grupo, o trabalho em conjunto e a troca de informações que salvou os cerca de mil humanos (variedade genética existente) que sobreviveram ao cataclisma do vulcão Toba da Ilha de Sumatra, a cerca de setenta e cinco mil anos atrás. Você podem ver isto no documentário da BBC de Londres - "Aventura da Vida" - sobre o desenvolvimento e a evolução da vida na Terra (http://www.guba.com/user/pfilosofia).

Enfim, através deste mecanismo da consciência coletiva e da consciência social a implicação da Liberdade, ou seja, somente terei liberdade se respeitar a liberdade do outro; somente expressarei a minha consciência, se respeitar a expressão da consciência do outro; torna-se fundamento de todo o sistema da Consciência e Liberdade.

Mais do que isto, este mecanismo insere na Teoria a característica da responsabilidade, pois a partir da consciência coletiva e da consciência social, expressar a própria liberdade, agir de acordo com a própria consciência, significa também agir com responsabilidade, respeitando o outro, para que o outro me respeite. E a violação dessa responsabilidade, significa violação da consciência coletiva e social. Logo, é uma violação das regras da Consciência Individual. Portanto,uma forma de inibição da liberdade. Isto significa que violar a liberdade do outro significa violar a minha própria liberdade. Desrespeitar a liberdade do outro é desrespeitar a minha própria liberdade. Atingir a consciência do outro é atingir a minha própria consciência.

Então, alguém dirá: este é o tal do contrato social ? Eu respondo: não. Não existe contrato social. Isto é um paradigma cultural. Qual é a diferença ? Bem, a diferença é que contrato começa com c e paradigma começa com p (brincadeirinha... disse isto só para o meu cérebro chato parar de fazer perguntas.). A diferença é que um contrato é um acordo de vontades, estabelecido com a aceitação da partes e uma paradigma é uma ação padronizada, neste caso é um comportamento cultural, que pode ter começado com apenas duas pessoas e, a partir daí, se espalhou para todas as demais, independentemente de aceitação ou de acordos. Você assinou, quando nasceu, algum contrato social que transferia parte de sua vontade ao governante ? Nem eu... Contudo, aprendemos, desde criancinhas, as regras e o comportamento social. Isto é um paradigma que passa de geração para geração. Certamente, este paradigma cultural começou com o desenvolvimento da consciência coletiva, com o desenvolvimento das regras na família. Em seguida, vieram as regras de convivência em uma tribo. Da consciência coletiva desenvolveu-se a consciência social. A consciência social exigiu o surgimento da consciência política. Esta levará ao desenvolvimento de uma consciência cosmopolita. Há uma evolução cultural da consciência. As regras vão sendo construída e aprimoradas ao longo dos séculos e milênios.

Com isto, podemos retornar ao caso dos nazistas que operavam o sistema totalitário. Agora já temos as respostas para as indagações. Primeiro, há uma íntima relação entre consciência, liberdade e responsabilidade. Esta relação é inserida pelas consciências coletiva e social, que são subsistemas da consciência individual. Logo, agir com consciência significa, necessariamente, agir com responsabilidade. Isto fica evidente quando se pensa que a consciência, para o seu funcionamento, exige informações e conhecimentos. E que o funcionamento da consciência consiste em processos analíticos. Processos analíticos são, pela própria natureza, lógicos, razoáveis e responsáveis.

Mas se os processos analíticos são lógicos, razoáveis e responsáveis, o que aconteceu no nazismo ? O primeiro acontecimento do nazismo foi a deturpação da informação e do conhecimento que atribuiu relevância social máxima a patologias/aberrações sociais. Lembre-se que no âmbito da consciência as informações e os conhecimentos são catalogados, por cada indivíduo, de forma diferente e em graus diferentes. O anti-semitismo tinha uma grande relevância na cabeça de Wagner e de Hitler e ele generalizou isto para a sociedade. O anti-semitismo é uma patologia social e não um elemento da sociedade. Os nazistas transformaram o anti-semitismo em uma política do Estado.

Com estas deturpações, a consciência, como sistema analítico, foi contaminada e passou a operar com dados falsos e a considerar aberrações sociais como comportamento comum e necessário. Com isto, o sistema totalitário começou a entrar na cabeça das pessoas e a dissolver as consciências naturais que possuíam e que não consideravam o anti-semitismo importante. A partir disso, são implantados mecanismos de uniformização das consciências.

Portanto, ocorreu uma violação da liberdade, através da violação da responsabilidade, que é inerente à consciência. Esta violação ocorreu, primeiramente, na generalização/imposição para toda a sociedade das aberrações sociais que existiam na cabeça dos líderes nazistas, idéias anti-semita foram espalhadas e disseminadas na sociedade através da mídia e da propaganda. Idéias que por si sós, já constituíam violação da liberdade do outro. Com isto, os operadores nazistas, violaram os princípios básicos da consciência. E esta violação foi dirigida inicialmente, não contra os judeus, mas contra o próprio povo alemão.

Lembre-se que primeiro o nazismo dominou os alemães, tornando-os instrumentos do totalitarismo. Depois usou estes instrumentos para exterminar os inimigos nas fábricas da morte. Logo, o extermínio dos Judeus é a última e a mais monstruosa das violações que promoveram. Este extermínio começa a se concretizar quando o sistema totalitário já está no domínio completo da maioria das consciência e as pessoas atuam como zumbis, movidas por desejos totalitários, ou seja, os indivíduos já são instrumentos totalitários de dominação e destruição.

Além disso, é válido dizer que a única forma de se retirar completamente a liberdade de um indivíduo é retirando a sua consciência. Não basta apenas criar normas que inibam ou impeçam a consciência de se manifestar, pois a consciência pode, perfeitamente, contrariar a norma ou ignorá-la, ou seja, as normas não retiram a liberdade do indivíduo, pois não podem e não conseguem retirar a consciência. As normas simplesmente reorientam ou condicionam a consciência do indivíduo exteriormente, limitando a liberdade.

Retirar a consciência do indivíduo significa contaminar o funcionamento natural da consciência, modificando a base de análise. É uma espécie de lavagem cerebral que modifica o banco de dados analítico da consciência. O banco de dados formado com informações, conhecimentos, costumes, valores, etc, que o indivíduo captou ao longo da vida naturalmente é substituído por um banco de dados artificial, introjetado pelo sistema, dentro da consciência da pessoa. Assim, a consciência, ao invés de analisar o banco de dados natural, analisa o banco de dados artificial. E é em cima deste último banco de dados que a consciência passa a operar, emitindo sentenças (vontade). Logo, a liberdade oriunda desta vontade viciada e contaminada não é a liberdade do indivíduo, mas sim a liberdade do sistema.

Eichmann tinha vontade, ele seguia a sua vontade, mas ele não era livre, pois a sua consciência estava contaminada pelo nazismo. Os pensamentos que circulavam na consciência de Eichmann e que emitia ordens, formando a sua vontade, eram pensamentos do sistema totalitário. Logo, a liberdade de Eichmann era a liberdade do sistema totalitário. Isto porque a vontade dele era formada por uma consciência movida a informações e conhecimentos introjetados pela mídia e propaganda nazista. A consciência de Eichmann era a consciência do sistema, pois os pensamentos de Eichmann eram sentenças prontas, formulas prontas emitidas pelo nazismo. Eichmann não questiona as sentenças e nem as fórmulas. Não processava informações e nem os conhecimentos. Apenas executava as ordens originadas.

Eichmann chama este comportamento de obediência cadavérica (Kadavergehorsam). Isto é contado por Hannah Arendt na obra Eichmann em Jerusalém:

"Assim sendo, eram muitas as oportunidades de Eichmann se sentir como Pôncios Pilatos, e à medida que passavam os meses e os anos, ele perdeu a necessidade de sentir fosse o que fosse. Era assim que as coisas eram, essa era a nova lei da terra, baseada nas ordens do Führer; tanto quanto podia ver, seus atos eram os de um cidadão respeitador das leis. Ele cumpria o seu dever, como repetiu insistentemente à polícia e à corte; ele não só obedecia ordens, ele também obedecia à lei. (...)

Como além de cumprir aquilo que ele concebia como deveres de um cidadão respeitador das leis, ele também agia sob ordens - sempre o cuidado de estar "coberto" -, ele acabou completamente confuso e terminou frisando alternativamente as virtudes e os vícios da obediência cega, ou a "obediência cadavérica" (kadavergehorsam), como ele próprio a chamou. (p. 152)"

E como dissemos anteriormente, aceitar sentenças prontas significa não processar nada, apenas executar aquilo que veio pronto. Este é o truque do sistema: introjetar sentenças prontas nos indivíduos que integram o sistema. Por isso, fala-se em vazio de pensamento. Vazio de pensamento de um ser humano normal. Porém consciência repleta de pensamentos do sistema totalitário: anti-semitismo, extermínio, ordens do Führer, câmara de gás, etc.

E é justamente nesse ponto que entra a razão de ser dessa teoria, ou seja, a novidade totalitária. O totalitarismo faz uma coisa que nenhum outro sistema tinha conseguido fazer antes. E que coisa é essa ? O totalitarismo retirou a consciência dos indivíduos. Logo, retirou completamente a liberdade dos Seres Humanos que pertenciam àquele sistema. Todos os movimentos anteriores atingiam a indivíduo criando regras e normas que condicionavam as consciências e limitavam a liberdade, mas nenhum sistema jamais havia retirado a consciência das pessoas. Retirando a consciência, ele retirou completamente a liberdade dos indivíduos.

Mas o totalitarismo foi além, muito além disso, ele não só retirou a consciência, mas a substituiu por outra consciência: a consciência do sistema totalitário. As pessoas perderam a sua consciência individual, logo, perderam a sua liberdade individual; e receberam, em troca, a consciência do sistema, logo, passaram a ter a liberdade do sistema (poder de agir de acordo com a consciência do sistema). A consciência do sistema gera a liberdade do sistema.

Mas o que exatamente quer dizer perda de consciência, seguida de substituição de consciência ? Em termos excessivamente genéricos é uma espécie de lavagem cerebral em massa. Retira a consciência do indivíduo, fazendo-o perder a sua identidade e individualidade, imergindo-o em uma multidão de iguais.

Por isso, em um sistema totalitário a mídia, a propaganda e o terror são tão importantes. Por isso, o vazio de pensamento, a mediocridade e a indiferença são essenciais para o sucesso inicial do sistema. São características que facilitam e garantem o sucesso de substituição de consciência dos indivíduos. Pessoas com tais características tem suas consciências facilmente arrancada e substituída por outra. São pessoas dóceis, facilmente controladas e dominadas. Pessoas que não percebem que seus pensamentos são pensamentos do sistema, que suas idéias e ideais são idéias e ideais do sistema, que suas ações são ações do sistema. A consciência que possuem é a consciência do sistema. Pensam igual o sistema. Falam igual o sistema. Agem igual o sistema. Fazem o que o sistema faz.

É um sistema que não admite questionamentos. Quaisquer questionamentos põe o sistema em risco, podendo romper a estrutura e mostrar as reais intenções e os objetivos da coisa. O todo é visto apenas por quem estrutura e controla o sistema.

Um outro ponto interessante desta Teoria é que o totalitarismo entra pela consciência política. Ele domina e modifica as regras da consciência política. Em seguida ele vai para a consciência social. Ele modifica e domina as regras do direito. E o próximo passo é entrar na consciência coletiva, na moral, na ética, nas relações de amizade e na família. E por último, quando já tem o domínio desses subsistemas da consciência, ele ataca e contamina a consciência individual.