A nossa última saída é agir como V de Vingança. Ataque direto e certeiro contra os operadores da dominação, da exploração e da exclusão. E isto pode ser feito por um único homem com um só rifle. Pode ser um Remington's M24-A2 Sniper Rifle (Clique aqui para vê-lo)
O Povo não deve temer o governo. O governo é que deve temer o povo.
Evey -- Acha mesmo que explodir o Parlamento tornará esse país melhor ? V -- Certeza não existe, oportunidade, sim. Evey --E você vai tornar isso possível explodindo um prédio ? V -- O prédio é um símbolo, assim como o ato de destruí-lo. O poder dos símbolos vêm das pessoas. Sozinho um símbolo não tem sentido. Mas com gente suficiente, explodir um prédio pode mudar o mundo. (...)" -----------------
Discurso de V na TV
"Boa noite, Londres. Primeiro, quero pedir desculpas por utilizar esse canal de emergência. Como muitos de vocês, eu também aprecio os confortos da rotina diária, a segurança do que é familiar, a tranqüilidade do repetitivo. Gosto disso, como qualquer um.
No intuito de comemorar eventos importantes do passado, geralmente associados à morte de alguém ou o fim de alguma horrível luta sangrenta, vocês celebram um feriado legal.
Achei que podíamos marcar esse dia 5 de novembro, um dia que certamente não é mais lembrado, tirando um dia das nossas vidas diárias para sentar e bater um papinho.
Claro que há alguns que não querem que falemos. Neste momento estão gritando ordens nos telefones e homens armados estão a caminho. Por que ?
Porque enquanto o cassetete é usado no lugar da conversa as palavras sempre manterão seu poder. As palavras expressam um significado e são para aqueles que aceitam ouvir a revelação da verdade. E a verdade é que há algo terrivelmente errado com este país, não é ?
Crueldade e injustiça, intolerância e opressão. Enquanto que antes vocês tinham a liberdade de objetar, de pensar e falar o que quisessem, hoje têm a censura e sistemas de vigilância coagindo vocês a conformidade e a submissão.
Como isso aconteceu ? De quem é a culpa ? Certamente uns são mais culpados que outros, mas serão responsabilizados. Mas o certo é que se quiserem achar o culpado, basta olharem no espelho.
Sei porque fizeram isso. Sei que estavam com medo. Quem não estaria ? Guerras, terror, doenças. Milhões de problemas conspiraram para corromper sua razão e roubar seu sentido comum. O medo os dominou. E em seu pânico, recorreram ao Alto Chanceler. Ele lhes prometeu ordem e paz. E a única coisa que pediu em troca foi seu consentimento calado e obediente.
Ontem à noite, busquei acabar com esse silêncio. Ontem à noite destruí o velho Barley (Edifício da Justiça) para lembrar este país o que está esquecido.
Mais de 400 anos atrás um grande cidadão quis incrustar o dia 5 de novembro para sempre em nossa memória. Sua esperança era lembrar ao mundo que retidão, justiça e liberdade não são meras palavras. Elas são perspectivas. (...)" --------------------- V busca destruir para reconstruir, eliminar a opressão para fazer florir a liberdade, explodir uma realidade para que outra possa se erguer sobre os escombros.
A nossa última saída
A nossa última saída é agir como V de Vingança. Ataque direto e certeiro contra os operadores da dominação, da exploração e da exclusão. E isto pode ser feito por um único homem com um só rifle. Pode ser um Remington's M24-A2 Sniper Rifle (Clique aqui para vê-lo)
O Povo não deve temer o governo. O governo é que deve temer o povo.
Evey -- Acha mesmo que explodir o Parlamento tornará esse país melhor ? V -- Certeza não existe, oportunidade, sim. Evey --E você vai tornar isso possível explodindo um prédio ? V -- O prédio é um símbolo, assim como o ato de destruí-lo. O poder dos símbolos vêm das pessoas. Sozinho um símbolo não tem sentido. Mas com gente suficiente, explodir um prédio pode mudar o mundo. (...)" -----------------
Discurso de V na TV
"Boa noite, Londres. Primeiro, quero pedir desculpas por utilizar esse canal de emergência. Como muitos de vocês, eu também aprecio os confortos da rotina diária, a segurança do que é familiar, a tranqüilidade do repetitivo. Gosto disso, como qualquer um.
No intuito de comemorar eventos importantes do passado, geralmente associados à morte de alguém ou o fim de alguma horrível luta sangrenta, vocês celebram um feriado legal.
Achei que podíamos marcar esse dia 5 de novembro, um dia que certamente não é mais lembrado, tirando um dia das nossas vidas diárias para sentar e bater um papinho.
Claro que há alguns que não querem que falemos. Neste momento estão gritando ordens nos telefones e homens armados estão a caminho. Por que ?
Porque enquanto o cassetete é usado no lugar da conversa as palavras sempre manterão seu poder. As palavras expressam um significado e são para aqueles que aceitam ouvir a revelação da verdade. E a verdade é que há algo terrivelmente errado com este país, não é ?
Crueldade e injustiça, intolerância e opressão. Enquanto que antes vocês tinham a liberdade de objetar, de pensar e falar o que quisessem, hoje têm a censura e sistemas de vigilância coagindo vocês a conformidade e a submissão.
Como isso aconteceu ? De quem é a culpa ? Certamente uns são mais culpados que outros, mas serão responsabilizados. Mas o certo é que se quiserem achar o culpado, basta olharem no espelho.
Sei porque fizeram isso. Sei que estavam com medo. Quem não estaria ? Guerras, terror, doenças. Milhões de problemas conspiraram para corromper sua razão e roubar seu sentido comum. O medo os dominou. E em seu pânico, recorreram ao Alto Chanceler. Ele lhes prometeu ordem e paz. E a única coisa que pediu em troca foi seu consentimento calado e obediente.
Ontem à noite, busquei acabar com esse silêncio. Ontem à noite destruí o velho Barley (Edifício da Justiça) para lembrar este país o que está esquecido.
Mais de 400 anos atrás um grande cidadão quis incrustar o dia 5 de novembro para sempre em nossa memória. Sua esperança era lembrar ao mundo que retidão, justiça e liberdade não são meras palavras. Elas são perspectivas. (...)" --------------------- V busca destruir para reconstruir, eliminar a opressão para fazer florir a liberdade, explodir uma realidade para que outra possa se erguer sobre os escombros.
sábado, 29 de setembro de 2007
Filme Dogville: o inefável sabor da vingança
Autor Konstantin Gavros --
Donatien-Alphonse-François, o marquês de Sade, conta - em A filosofia na alcova - que Luís XV, ao dirigir-se a Chardolais, "que matara um homem para se divertir", lhe diz: "- Eu vos perdôo, mas também àquele que irá matar-vos."
Há uma ética a ser dissecada na fala de Luís XV. Uma ética que coloca todos os homens em pé de igualdade. Uma ética que não faz distinção entre fortes e fracos, entre poderosos e submissos, entre homens livres e escravos. Uma ética cujo princípio é o da mais pura igualdade, pois todos estão perdoados de antemão, mas devem também estar preparados para arcar com as conseqüências de seus atos. Uma ética que pressupõe o direito de vingança e o referenda como algo justo - e justo exatamente por igualar o assassino e, no caso, o provável justiceiro que o perseguirá: colocados um diante do outro, eles resolverão entre si, da maneira mais pura e mais digna, o acerto de contas pela violência que o primeiro cometeu gratuitamente.
Essa é, contudo, uma ética incompreensível para nós, educados em uma civilização cujos pilares nascem do direito romano e do cristianismo. Para muitos de nós, as palavras de Luís XV são tão incompreensíveis quanto a última parte do filme Dogville, de Lars Von Trier.
De fato, a vingança está exilada de nossas vidas, como se ela fosse um gesto que nos diminuísse, nos inferiorizasse, ou nos tornasse moralmente fracos. O ultrajado que ousa escolher o caminho da vingança é, entre nós, punido pelo Estado, pela religião e pela sociedade. Claro, fomos educados para perdoar e amar, ainda que o mundo nos apedreje...
O que todos escondem, no entanto, é que vivemos em uma sociedade hipócrita, na qual, de um lado, nos consumimos, impotentes e em silêncio, em nossos desejos de vingança, e, de outro, somos treinados, desde muito cedo, a reprimir o que sentimos, pois nos ensinam que seremos considerados bons e exemplares apenas quando nos comportarmos de maneira servil.
Quem é o melhor empregado? O que corteja, de maneira sóbria e gentil, equilibrando-se entre a subserviência e um falso ar de responsabilidade; ou mesmo o bajulador declarado, um tipo que é sempre vencedor.
Qual é o melhor cidadão? O que se submete às leis em cuja elaboração ele não foi - e jamais será! - chamado a opinar; aquele que se deixa escorchar pelas taxas e pelos impostos injustos ou abusivos, mentindo a si mesmo que, sim, o Estado nos suga, mas para beneficiar a todos igualmente; e o estúpido crédulo que, sentindo-se injustiçado, mas confiante nas leis, feitas apenas para uma minoria, contrata um advogado, abre um processo no Fórum mais próximo, e vê sua vida e suas economias definharem ao longo dos anos, enquanto a Justiça lhe sorri.
Qual é o melhor filho? O mais obediente, o mais submisso, o que acata todos os "nãos" como se fossem uma bênção; o que - semelhante a um cão - lambe as mãos de quem o castra e humilha.
O filme de Lars Von Trier nos escandaliza somente por uma única razão: ele é o espelho do mundo que construímos com nossa covardia. Nós somos Dogville. Cultivamos nossas mesquinharias, nossas frustrações e nossos medos, fruindo desse prazer masoquista que nos foi inculcado desde o ventre de nossas mães. Mas sempre prontos a, no silêncio da nossa falsa bondade e esboçando o sorriso de um tartufo, espoliarmos, abusarmos e violentarmos a primeira Gracie que aparecer em nossas vidas. Realmente, não há maior lucidez do que a do marquês de Sade, quando - também em A filosofia na alcova - ele nos diz que "aquilo que os idiotas chamam de humanidade não passa de uma fraqueza nascida do temor ou do egoísmo".
Mas o que ocorreria ao mundo se cada um de nós pudesse exercer, sem censura ou medo, as suas pulsões de vingança, por mais cruéis que elas fossem? Regrediríamos, certamente, ao que os filósofos chamam de "estado de natureza", o suposto estágio que antecede o início deste em que vivemos, e que os filósofos apreciam chamar de "contrato social". Um contrato de cláusulas leoninas, segundo as quais a imensa maioria deve servir e apodrecer na miséria, na fome e na doença, enquanto uma minoria legisla e governa em causa própria, além, é claro, de enriquecer. E denominamos esse estado de absoluta discrepância de poderes com um outro adorável eufemismo: "democracia". Uma palavra que de tão falsa chega a me provocar pruridos anais...
As regras, como vemos, são muito simples: eu te exploro e você me agradece (ou, como é o costume, finge agradecer). Se, por alguma incontrolável razão, você decidir se vingar... bem... para isso existem as prisões e os hospícios...
Contudo, um alerta: até agora falamos, neste artigo, daqueles 40% da população brasileira que não mora em favelas e alimenta-se três vezes ao dia, pois o restante vive à margem do sistema em que as regras da hipocrisia legal vicejam. Seria um exercício saudável aos nossos intelectuais - de esquerda e de direita - uma estadia de quatro semanas em uma favela - todas elas, aliás, comandadas pelo narcotráfico -, pois descobririam um outro país, no qual a vingança fria e calculada - ou seja, o direito de retribuir em igual medida o mal que foi cometido - comanda as relações sociais, criando um equilíbrio e uma harmonia só comparáveis aos que usufruíamos quando ainda habitávamos a selva.
E a história não nos desampara neste momento: compulsemos os melhores tratados e veremos que a verdade só triunfa quando escolhe, como aliada, a violência. Os servos só deixaram de ser espoliados quando encostaram a faca na garganta dos seus opressores. Da mesma forma, certamente também nós guardamos a lembrança dos poucos momentos em que ousamos erguer a cabeça e nos revoltamos. Aqueles minutos de prazer, semelhantes em tudo a uma deliciosa sucessão de orgasmos, foram os únicos em que ousamos ser verdadeiros, e são eles, hoje, que nos salvam do completo embotamento.
É exatamente o que Dogville nos ensina. Ao final do filme, inebriados pela correta decisão de Grace, alegres por ela ter feito o que não temos coragem de fazer, recordamos outro trecho de Sade: "Só a piedade e a beneficência são perigosas no mundo. A bondade é apenas uma fraqueza cuja ingratidão e a impertinência dos fracos forçam sempre as pessoas honestas a se arrependerem." O prêmio de Grace por sua absoluta bondade foi apenas a sua queda. Uma derrocada, aliás, orquestrada por Tom, o arquétipo de todos os moralistas.
Na verdade, o que Dogville nos mostra é que o chamado "contrato social" precisa ser urgentemente reescrito. E se eu vier a ser consultado sobre o teor das novas cláusulas, recomendarei que haja apenas uma: "Olho por olho, dente por dente." Essa é a única regra capaz de instituir justiça e igualdade entre os homens.
Konstantin Gavros é escritor.
Trailer do Filme Dogville (em inglês) -- Assista esse filme para que você entenda os homens, os seus interesses e as suas ações:
Filme Dogville: o inefável sabor da vingança
Autor Konstantin Gavros --
Donatien-Alphonse-François, o marquês de Sade, conta - em A filosofia na alcova - que Luís XV, ao dirigir-se a Chardolais, "que matara um homem para se divertir", lhe diz: "- Eu vos perdôo, mas também àquele que irá matar-vos."
Há uma ética a ser dissecada na fala de Luís XV. Uma ética que coloca todos os homens em pé de igualdade. Uma ética que não faz distinção entre fortes e fracos, entre poderosos e submissos, entre homens livres e escravos. Uma ética cujo princípio é o da mais pura igualdade, pois todos estão perdoados de antemão, mas devem também estar preparados para arcar com as conseqüências de seus atos. Uma ética que pressupõe o direito de vingança e o referenda como algo justo - e justo exatamente por igualar o assassino e, no caso, o provável justiceiro que o perseguirá: colocados um diante do outro, eles resolverão entre si, da maneira mais pura e mais digna, o acerto de contas pela violência que o primeiro cometeu gratuitamente.
Essa é, contudo, uma ética incompreensível para nós, educados em uma civilização cujos pilares nascem do direito romano e do cristianismo. Para muitos de nós, as palavras de Luís XV são tão incompreensíveis quanto a última parte do filme Dogville, de Lars Von Trier.
De fato, a vingança está exilada de nossas vidas, como se ela fosse um gesto que nos diminuísse, nos inferiorizasse, ou nos tornasse moralmente fracos. O ultrajado que ousa escolher o caminho da vingança é, entre nós, punido pelo Estado, pela religião e pela sociedade. Claro, fomos educados para perdoar e amar, ainda que o mundo nos apedreje...
O que todos escondem, no entanto, é que vivemos em uma sociedade hipócrita, na qual, de um lado, nos consumimos, impotentes e em silêncio, em nossos desejos de vingança, e, de outro, somos treinados, desde muito cedo, a reprimir o que sentimos, pois nos ensinam que seremos considerados bons e exemplares apenas quando nos comportarmos de maneira servil.
Quem é o melhor empregado? O que corteja, de maneira sóbria e gentil, equilibrando-se entre a subserviência e um falso ar de responsabilidade; ou mesmo o bajulador declarado, um tipo que é sempre vencedor.
Qual é o melhor cidadão? O que se submete às leis em cuja elaboração ele não foi - e jamais será! - chamado a opinar; aquele que se deixa escorchar pelas taxas e pelos impostos injustos ou abusivos, mentindo a si mesmo que, sim, o Estado nos suga, mas para beneficiar a todos igualmente; e o estúpido crédulo que, sentindo-se injustiçado, mas confiante nas leis, feitas apenas para uma minoria, contrata um advogado, abre um processo no Fórum mais próximo, e vê sua vida e suas economias definharem ao longo dos anos, enquanto a Justiça lhe sorri.
Qual é o melhor filho? O mais obediente, o mais submisso, o que acata todos os "nãos" como se fossem uma bênção; o que - semelhante a um cão - lambe as mãos de quem o castra e humilha.
O filme de Lars Von Trier nos escandaliza somente por uma única razão: ele é o espelho do mundo que construímos com nossa covardia. Nós somos Dogville. Cultivamos nossas mesquinharias, nossas frustrações e nossos medos, fruindo desse prazer masoquista que nos foi inculcado desde o ventre de nossas mães. Mas sempre prontos a, no silêncio da nossa falsa bondade e esboçando o sorriso de um tartufo, espoliarmos, abusarmos e violentarmos a primeira Gracie que aparecer em nossas vidas. Realmente, não há maior lucidez do que a do marquês de Sade, quando - também em A filosofia na alcova - ele nos diz que "aquilo que os idiotas chamam de humanidade não passa de uma fraqueza nascida do temor ou do egoísmo".
Mas o que ocorreria ao mundo se cada um de nós pudesse exercer, sem censura ou medo, as suas pulsões de vingança, por mais cruéis que elas fossem? Regrediríamos, certamente, ao que os filósofos chamam de "estado de natureza", o suposto estágio que antecede o início deste em que vivemos, e que os filósofos apreciam chamar de "contrato social". Um contrato de cláusulas leoninas, segundo as quais a imensa maioria deve servir e apodrecer na miséria, na fome e na doença, enquanto uma minoria legisla e governa em causa própria, além, é claro, de enriquecer. E denominamos esse estado de absoluta discrepância de poderes com um outro adorável eufemismo: "democracia". Uma palavra que de tão falsa chega a me provocar pruridos anais...
As regras, como vemos, são muito simples: eu te exploro e você me agradece (ou, como é o costume, finge agradecer). Se, por alguma incontrolável razão, você decidir se vingar... bem... para isso existem as prisões e os hospícios...
Contudo, um alerta: até agora falamos, neste artigo, daqueles 40% da população brasileira que não mora em favelas e alimenta-se três vezes ao dia, pois o restante vive à margem do sistema em que as regras da hipocrisia legal vicejam. Seria um exercício saudável aos nossos intelectuais - de esquerda e de direita - uma estadia de quatro semanas em uma favela - todas elas, aliás, comandadas pelo narcotráfico -, pois descobririam um outro país, no qual a vingança fria e calculada - ou seja, o direito de retribuir em igual medida o mal que foi cometido - comanda as relações sociais, criando um equilíbrio e uma harmonia só comparáveis aos que usufruíamos quando ainda habitávamos a selva.
E a história não nos desampara neste momento: compulsemos os melhores tratados e veremos que a verdade só triunfa quando escolhe, como aliada, a violência. Os servos só deixaram de ser espoliados quando encostaram a faca na garganta dos seus opressores. Da mesma forma, certamente também nós guardamos a lembrança dos poucos momentos em que ousamos erguer a cabeça e nos revoltamos. Aqueles minutos de prazer, semelhantes em tudo a uma deliciosa sucessão de orgasmos, foram os únicos em que ousamos ser verdadeiros, e são eles, hoje, que nos salvam do completo embotamento.
É exatamente o que Dogville nos ensina. Ao final do filme, inebriados pela correta decisão de Grace, alegres por ela ter feito o que não temos coragem de fazer, recordamos outro trecho de Sade: "Só a piedade e a beneficência são perigosas no mundo. A bondade é apenas uma fraqueza cuja ingratidão e a impertinência dos fracos forçam sempre as pessoas honestas a se arrependerem." O prêmio de Grace por sua absoluta bondade foi apenas a sua queda. Uma derrocada, aliás, orquestrada por Tom, o arquétipo de todos os moralistas.
Na verdade, o que Dogville nos mostra é que o chamado "contrato social" precisa ser urgentemente reescrito. E se eu vier a ser consultado sobre o teor das novas cláusulas, recomendarei que haja apenas uma: "Olho por olho, dente por dente." Essa é a única regra capaz de instituir justiça e igualdade entre os homens.
Konstantin Gavros é escritor.
Trailer do Filme Dogville (em inglês) -- Assista esse filme para que você entenda os homens, os seus interesses e as suas ações:
"Não está em mim ser um homem comum. Tenho de escolher e ser incomum, se puder procuro a oportunidade antes do comodismo. Não sou o cidadão acomodado, indolente e sem iniciativa, que fica a esperar que as coisas aconteçam. Escolho o risco calculado de sonhar, de construir, de falhar, de realizar e alcançar o sucesso. Prefiro os desafios da vida a uma existência pacata; as emoções de uma conquista à insipidez da utopia. Não troco a minha liberdade por caridade; nem minha dignidade por fama. Meu patrimônio é agir por mim mesmo, gozar dos benefícios da minha criatividade, olhar com intrepidez o mundo e dizer de cabeça erguida: isto eu fiz com a ajuda de Deus..."
Voltaire dizia: "Posso não concordar com o que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizer." Essa frase pode ser generalizada para a seguinte: "Posso não concordar com o uso que você faz do seu livre-arbítrio, mas defenderei até o fim o seu direito de ter livre-arbítrio..." Acho que isso diz tudo. (Leonildo Correa) ----------------- Um certo dia, enquanto estava caminhando pela estrada, rabi Iochanan viu um homem plantando uma alfarrobeira. E ele perguntou-lhe: "Quanto tempo vai levar para esta árvore dar frutos ?" "Setenta anos", o homem respondeu. "E tens certeza que ainda viverás setenta anos para comer dos seus frutos ?" Ao que o homem retrucou: "Eu encontrei este mundo cheio de alfarrobeiras plenamente crescidas; assim como os meus antepassados plantaram para mim, eu estou plantando para meus filhos." (Bialik 203.7; B.Ta 23a) ---------------- "“Se você tem uma maçã e eu tenho uma maçã e nós trocamos as maçãs, então você e eu ainda teremos uma maçã. Mas se você tem uma idéia e eu tenho uma idéia e nós trocamos essas idéias, então cada um de nós terá duas idéias” (Bernard Shaw)." -------------- Compartilhando o milho Esta é a história de um fazendeiro bem sucedido. Ano após ano, ele ganhava o troféu "Milho Gigante" da feira da agricultura do município. Entrava com seu milho na feira e saía com a faixa azul recobrindo seu peito. E o seu milho era cada vez melhor.
Numa dessas ocasiões, um repórter ao abordá-lo, ficou intrigado com a informação dada pelo entrevistado sobre como costumava cultivar seu qualificado e valioso produto. O repórter descobriu que o fazendeiro compartilhava a semente do seu milho gigante com os vizinhos.
"Como pode o Senhor dispor-se a compartilhar sua melhor semente com seus vizinhos quando eles estão competindo com o seu em cada ano?" - indagou o repórter.
O fazendeiro pensou por um instante, e respondeu: "Você não sabe? O vento apanha o pólen do milho maduro e o leva através do vento de campo para campo. Se meus vizinhos cultivam milho inferior, a polinização degradará continuamente a qualidade do meu milho. Se eu quiser cultivar milho bom, eu tenho que ajudar meu vizinhos a cultivar milho bom".
Ele era atento às conectividades da vida.
O milho dele não poderia melhorar se o milho do vizinho também não tivesse a qualidade melhorada. Assim é também em outras dimensões da nossa vida. Aqueles que escolhem estar em paz devem fazer com que seus vizinhos estejam em paz. Aqueles que querem viver bem têm que ajudar os outros para que vivam bem. E aqueles que querem ser felizes têm que ajudar os outros a encontrar a felicidade, pois o bem-estar de cada um está ligado ao bem-estar de todos. (Autor: anônimo) ------------------
Os insurretos do século 21: a I Insurreição Pirata
“Se você tem uma maçã e eu tenho uma maçã e nós trocamos as maçãs, então você e eu ainda teremos uma maçã. Mas se você tem uma idéia e eu tenho uma idéia e nós trocamos essas idéias, então cada um de nós terá duas idéias” (Bernard Shaw).
Essa é a lógica do compartilhamento. Idéias não são bens materiais. E isso pauta a I Insurreição Pirata que acontecerá na ONG Ação Educativa nos próximos dias 28 e 29 de março. O evento é organizado por ativistas da cybercultura e pessoas defensoras do conhecimento livre, para a formação, também no Brasil, de uma agremiação política que combata o copyright – o Partido Pirata.
Explico. Uma insurreição “Pirata” contra os abusos da indústria copyright. E contra a criminalização do compartilhamento em rede. Se baixar, subir, compartilhar músicas, vídeos, textos, fotos, cachorros e papagaios é crime, então somos todos criminosos. No final das contas, somos todos piratas?
Sérgio Amadeu, ativista do software livre, é enfático: “Piratas são eles. Não estamos a procura do ouro!”
Para Amadeu, a metáfora pirataria é péssima para se referir a bens compartilhados. O termo pirata é ambíguo, nos remete à idéia de roubo. E diga-se de passagem, compartilhamento e roubo são coisas bem distintas e distantes. E é com o intuito, de pelear contra todo o obscurantismo provocado, que a I Insurreição debaterá temas, em formato de desconferências, relacionados à livre circulação de informações. ----------------
Aventura da vida 5 - Documentário da BBC
Leonildo Correa
Eu assisti, recentemente, um documentário da BBC de Londres - "Aventura da Vida" - sobre o desenvolvimento e a evolução da vida na Terra. Não é um documentário só. São vários documentários, mas o mais interessante é o último deles, o de número 5.
Este último trata da evolução do homem na Terra e busca responder à questão: se nós possuímos 99% dos genes que possui um chimpanzé, por que somos tão diferentes deles ? Certamente, é uma questão muito interessante, e, sem dúvida nenhuma, a resposta é surpreendente. Tão surpreendente que, enquanto o documentário se desenrolava, eu o relacionava com os projetos OCW e com o Ensino Público via internet. Mas, certamente, você só entenderá esta relação, se assistir o documentário ou ler o pequeno resumo que apresento abaixo.
-------------------------------
Inicialmente, diz o documentário, que as melhores pistas para desvendar o nosso passado estão nos chimpanzés. Isto porque quando estudamos estes parentes descobrimos indícios de que realmente descendemos de um ancestral simiesco e isto está marcado no âmago de nossos corpos, em nossos genes. 99% de nossos genes são exatamente iguais aos dos chimpanzés. E o que há no 1% restante é o que nos faz ser homens, em vez de macacos.
Fugindo um pouquinho do tema, no episódio quatro deste documentário, há uma informação interessante. Ele diz que há uma ser marinho, parecido com uma planta, que possui cerca de 80% dos genes que nós possuímos, inclusive aqueles genes que formam o coração.
Retornando ao episódio cinco. No princípio, a diferença entre homens e macacos não tinha nada a ver com a potência cerebral. Entre quatro e cinco milhões de anos atrás, os ancestrais dos homens começaram a passar mais tempo no chão do que nas árvores, onde ficaram os chimpanzés. Assim, os chimpanzés desenvolveram o caminhar apoiado nas articulações dos dedos e suas mãos permaneceram grossas e firmes para sustentar seu peso. Já os homens escolheram uma solução mais radical e este foi o primeiro passo na jornada humana. Os homens ficaram de pé sobre as duas pernas. Depois disso, avançaram sem olhar para trás.
Contudo, os cérebros humanos não eram tão grandes como são hoje. Há cinco milhões de anos atrás eram bem menores. Tinham o mesmo tamanho do cérebro dos chimpanzés.
Então, por que o caminhar ereto foi um passo tão crucial para os homens ? A resposta é: apoiando todo o peso sobre os pés, os homens deixaram as mãos livres para fazer outras coisas. Inclusive, isto originou o movimento de pinça delicado e preciso entre o indicador e o polegar. Uma característica exclusiva dos seres humanos.
Além disso, nossos polegares são mais longos e flexíveis que os dos chimpanzés, pois não precisamos andar apoiados nas mãos. Assim, as mãos humanas tornaram-se instrumentos de precisão que podem ser utilizados de maneiras extraordinariamente variadas. Mas não foi só isso que obrigou o aumento do cérebro. Também contribuíram a união e formação de grupos. Maneiras de evitar ser devorados pelos predadores. Logo, a vida comunitária trouxe novos desafios e obrigou o homem a começar a usar a cabeça.
A convivência trouxe um elemento novo: a vida social. Mas, quanto maior o grupo, mais problemas sociais podem aparecer. E, mais uma vez, há a necessidade de um cérebro grande para lidar com eles. Assim, pouco a pouco e milhões de anos depois, comparado aos chimpanzés, o homem se transformou em um cabeçudo.
Vivendo em grupo, criar amizades e alianças é algo crucial. É preciso lembrar quem é quem e o que é o quê. Logo, o próximo passo na evolução dos cabeçudos, digo dos homens, foi conquistar a cultura e a civilização. Uma evidência antiga disso foi descoberta na Caverna Blombos, perto da Cidade do Cabo, na África do Sul. Nesta Caverna foi descoberto um artefato de argila com óxido de ferro. Objeto denominado ocre. Este artefato possui cerca de setenta mil anos.
Este artefato histórico possui entalhes surpreendentes. Formas abstratas que são o primeiro registro que se tem de uma obra de arte. A peça é um marco das raízes do que chamamos cultura e civilização. É importante ressaltar que a arte e a religião diferenciam o homem do resto dos animais. Não só isto, são estas características que possibilitaram a construção das grandes civilizações.
Muitos cientistas crêem que a chave para o avanço extraordinário dos seres humanos é uma coisa em que não costumamos pensar muito: a linguagem. Mas por que a fala é tão importante na história da raça humana ? E a resposta está na transferência de conhecimento. Os chimpanzés adquirem habilidades por imitação. Os pequenos chimpanzés aprendem observando as mães.
Como os chimpanzés, as crianças menores também aprendem imitando as maiores. Assim, as habilidades passam de geração para geração. Contudo, há uma grande diferença entre os humanos e os macacos. Esta diferença é que os chimpanzés podem levar até seis anos para dominar totalmente a técnica de quebrar nozes, enquanto os humanos, por outro lado, podem usar um atalho. Os humanos podem ensinar, até as crianças mais novas, simplesmente falando com elas. Assim, estas crianças podem aprender uma técnica instantaneamente.
E com a linguagem continuamos a aprender coisas novas pelo resto de nossas vidas. Assim, há cem mil anos atrás já resolvíamos problemas conversando uns com os outros. Além disso, com nossos cérebros avantajados, criamos uma comunicação que nunca havia sido tentada antes. Quando nos tornamos seres falantes, nossa evolução cultural pode começar. E este é o segredo escondido atrás do 1%.
Evolução cultural foi uma idéia totalmente nova. Enquanto nossos parentes chimpanzés ficaram presos à evolução biológica, os humanos deram um salto quântico usando a evolução cultural. Uma evolução que não se baseia nos genes como a evolução biológica, mas sim no ato de partilhar idéias.
Com a fala, o conhecimento pôde ser disseminado depressa. Este foi um dos avanços mais revolucionários da Aventura da Vida, que nos colocou no caminho para dominarmos o mundo.
Mas não foi só isto. A erupção de um vulcão na Ilha de Sumatra - Vulcão Toba - cobriu a maior parte do planeta com uma nuvem tóxica, impedindo a passagem dos raios de sol. Isso ocasionou uma grande extinção - extermínio da maioria das espécies, incluindo a maior parte dos seres humanos. Hoje, cientistas acreditam que o que pode ter salvado uma pequenas parte dos homens da extinção foi o trabalho em conjunto e a troca de informações.
Em um ambiente hostil e árido, uma dica dos vizinhos pode salvar sua vida. Sem essa troca regular de conhecimentos, os vários povoados ficariam isolados e, sem ajuda externa, acabariam extinguindo-se. Hoje, supõe-se que foi nossa habilidade para falar e ajudar uns aos outros em um ambiente hostil que nos salvou depois da erupção do vulcão Toba.
Assim, os humanos não estavam apenas falando e compartilhando idéias, mas, mais do que nunca, já trabalhavam juntos. Com isso, a evolução cultural estava em pleno curso por todo o planeta.
Embora contar aos outros o que se sabe por meio da fala continue sendo primordial para o homem, a sua capacidade de armazenar conhecimento individualmente é muito limitada. Uma pessoa sozinha não pode saber tudo. Se alguém morre sem passar suas idéias e sua cultura adiante, elas estarão perdidas para sempre. A menos, é claro, que sejam escritas.
A solução foi preservarmos nossas idéias e conhecimentos nos livros. Com isto, a evolução cultural acelerou ainda mais. Com a escrita, gerações futuras expandiram idéias que já haviam sido delineadas. Ninguém pode lembrar sozinho como se constrói um foguete, mas, se estiver escrita, esta informação estará ao alcance de muitas pessoas.
Por dois mil e quinhentos anos, preservamos nossa preciosa cultura em livros. Mas a quantidade de conhecimento que pode ser armazenada no computador excede a de todos os livros, de todas as bibliotecas do mundo inteiro. Na era da internet, qualquer pessoa, de qualquer lugar, pode explorar esse repositório único.
Nunca as idéias foram disseminadas com tanta rapidez, seja para fins comerciais, educativos ou por mero prazer. Os computadores são o centro da cultura moderna.
Sem a escrita e sem esse poder de armazenar conhecimento, onde será que nós estaríamos ? A resposta é: na idade da pedra, pois os humanos daquela época e os humanos de hoje são exatamente iguais. Na Idade da Pedra os humanos já eram tão inteligentes quanto nós. Tirando o nosso aparato tecnológico, no fundo, todos continuamos sendo os mesmos homens das cavernas. Isto porque nossos genes não mudaram nada. Logo, bebês das duas eras, se pudessem ser colocados juntos, seriam indistinguíveis geneticamente, ou seja, possuem a mesma composição genética.
Além disso, a atualidade evidencia que a evolução cultural tende a acelerar cada vez mais. Contudo, o mais surpreendente desta história é que nós humanos conquistamos, pela primeira vez na história, o poder de controlar a nossa evolução e o nosso futuro biológico. ---------------------------------